sábado, 2 de janeiro de 2016

Desventuras de um cinéfilo 004 - O Fim das Locadoras

Fonte: Campo Grande News
Dia desses, tendo acabado de voltar de uma viagem para São Paulo e, por esse motivo, um tanto ausente das redes sociais, descobri que a sede da locadora 100% Vídeo estava fechando as suas portas e vendendo todo seu acervo. Uma oportunidade ótima para se aumentar a coleção mas não há motivo para celebração alguma...

Eu sempre fui um cara completamente apaixonado por locadoras e esse era O passeio da minha infância. Antigamente, antes do advento do DVD (que eu já enxergava com olhos desconfiados), as locadoras reinavam com suas fitas, seus lançamentos e a disputa pelo aluguel dos mesmos. Era comum a sexta-feira à noite ser reservada para uma visita numa locadora, para escolhermos filmes do final de semana. 

Mas, nós já sabemos o que aconteceu: internet banda larga, download de filmes, preços absurdos, netflix e todos os fatores que culminaram no fechamento em massa das locadoras. As primeiras a morrer foram justamente as melhores: locadoras de bairro, com acervo antigo, maior parte em fita VHS, começaram a vender seu acervo e fechar as portas. Lembro-me, nitidamente, de um dia que fui com meu querido tio Dario numa dessas locadoras, lá pelo ano de 2004. Como criança, ainda não tinha dinheiro para torrar nesse tipo de coisa, por isso adquiri apenas um filme, a VHS de O HOMEM SEM SOMBRA (ainda era um garoto no mundo do cinema...), enquanto meu tio adquiriu o sensacional A NOIVA DE RE-ANIMATOR. Foi uma tarde inesquecível...

Mais tarde, as grandes locadoras começaram a vender seu acervo em VHS. Aqui em Campo Grande, tínhamos uma rede de locadoras chamada Héllios Vídeo, que frequentávamos assiduamente. Numa tarde, eu e o mesmo tio, companheiro das melhores aventuras, fomos fazer umas comprinhas e eu levei oito filmes, que precisei esconder no caminho de ônibus para casa, porque sabia que minha mãe não ficaria muito satisfeita. Meu tio, cúmplice, usou sua mochila para disfarçar as fitas. Minha sorte é que naquele dia haveria uma reunião de um grupo de budistas em minha casa e pude contrabandear os filmes para o meu quarto enquanto minha mão organizava a tal reunião.

Nessa época, uma anedota particularmente agradável foi quando eu e minha irmã fomos visitar minha avó e meu tio e ele conseguira locar a disputada fita dupla d'O Senhor dos Anéis, dublada. Com um X-Tudo especialmente preparado pelas mãos habilidosas da Vó Glória, mergulhamos no universo de Tolkien numa sexta-feira à noite.


Comprar filmes não era das tarefas mais fáceis. Quem nasceu depois do DVD, não sabe que as Lojas Americanas não tinham essa variedade de filmes como tem hoje em dia. As únicas maneiras de se comprar filmes era quando as locadoras fechavam ou se desfaziam de seu acervo ou quando acontecia uma feira de fitas VHS promovida pela 100% Vídeo e o Shopping CG - antes da franquia abrir sua sede. Minha lembrança é de pelo menos duas dessas feiras, lá nos anos 90, onde pude começar uma modesta coleção de filmes - um dos primeiros títulos comprados foram Jurassic Park e Esqueceram de Mim 1 e 2 (que substituíram uma gravação em VHS que assistíamos quase todo dia quando crianças e, finalmente permitiram conhecer as vozes originais dos atores - mas as falas do filme dublado eu me lembro até hoje).


Filmes que comprei. Infelizmente, a grana estava curta, mas
acho que pude fazer umas boas aquisições.
As maiores locadoras do Brasil nunca chegaram em Campo Grande no auge desse negócio. A própria 100% Vídeo só deu as caras por aqui depois de 2003 (uma estimativa, não consigo recordar com precisão). De vez em quando, alguns donos de locadora me davam aquelas revistas/catálogo e eu conhecia marcas de locadora como A Poderosa ou 2001 Vídeo, mas nenhuma teve sede em Campo Grande. Assim, o fim da 100% Vídeo não mexeu com meu coração como aconteceu com a Héllios Vídeo (eu ainda escreverei sobre a importância dessa locadora, em outra postagem). 

Contudo, não pude deixar de ficar reflexivo enquanto escolhia alguns filmes, seguindo o meu critério pessoal de filmes que eu dificilmente encontrarei numa impessoal porém gratificante baciada das Lojas Americanas. Tenho a impressão de que esta foi a última locadora de Campo Grande. Todas as outras já fecharam suas portas. E para nós, cinéfilos que acompanhamos e frequentamos esses ambientes, não há como não ficar melancólico. 

Estava eu naquele literal mar de filmes, DVDs espalhados por todos os cantos e, enquanto escolhia, me surpreendia com alguns achados, encontrava amigos e calculava os gastos, essas memórias todas me atingiam de maneira fulminante. Tudo que é bom, realmente dura pouco. 

Talvez, eu soe extremamente piegas, mas eu gosto de imaginar o paraíso como uma grande locadora, a mais imensa que você possa imaginar e passar a eternidade perdido por entre suas prateleiras e fitas. 

O acesso que temos ao cinema do mundo todo é maravilhoso. Gosto muito do serviço do netflix e sou assinante. Adoro comprar filmes mais difíceis de achar para compor minha coleção. Mas tenho a impressão que nenhuma dessas coisas conseguirá substituir a magia das boas e velhas locadoras. E não creio que as novas gerações irão desfrutar alguma experiência parecida, como essas descritas. 

3 comentários:

  1. Concordo em gênero e grau, pois parte dos bons momentos de minha infância e adolescência se devem ás videolocadoras.
    É uma pena as mesmas estarem se extinguindo.
    Abraço.
    Jorge Verneti

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  2. Opa, Jorge, como vai?
    Realmente, dá uma saudade imensa quando se para pra pensar. Ainda tenho algumas boas histórias de locadora para contar - como mostrar as fitas de vídeo que eu comprei nelas (to até cogitando fazer em vídeo, vamos ver).

    Forte abraço e muito obrigado pelo comentário!

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