terça-feira, 23 de outubro de 2018

42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo


Com uma alegria imensa, compartilho algumas reviews de uma correspondente muito especial, se aventurando pelas esquisitices, anacronismos e boas surpresas que todo (bom) festival de cinema pode reservar. A programação tem vários nomes interessantes, algumas obviedades e muito espaço para exploração/descoberta, sempre com o gosto de exclusividade, pois sabemos que mesmo com a internet, sempre existe algumas dezenas de filmes que não conseguimos encontram em lugar algum. E, no futuro, espero que o aventureiro seja você pelas diversas salas de cinema de Sampa...

domingo, 11 de março de 2018

All Things Must Pass: The Rise and Fall of Tower Records (2015)


Existe uma ideia um tanto assustadora, cuja visita vem me assombrando pelos últimos dias: talvez, a felicidade só exista por alguns ligeiros momentos, eclipses de contentamento numa existência marcada, essencialmente, pelo desafio de se viver. É um pensamento aterrador, se você parar para pensar: vive-se uma semana - 168 horas - por alguns minutos que ficarão guardados como especiais para o restante da vida...


Isso desperta uma miríade de sensações e resoluções. Talvez por isso eu venho sentindo essa dor invisível e inexplicável, frente à rotina do meu cotidiano e as perspectivas distantes de resolução. É um incômodo, um desconforto difícil de se aquietar. 

É por essa razão que eu reservo certos filmes para situações críticas como esta. À primeira vista, pode parecer que ALL THINGS MUST PASS é um filme bastante representativo do colapso das lojas de discos e, consequentemente, da venda de música após o advento da Internet. Logicamente, o documentário é sobre isto também e seu epílogo melancólico reforça essa tragédia. 


Entretanto, a ascensão da Tower Records, uma mega cadeia de loja de discos dos Estados Unidos (com sedes distribuídas por todo mundo, incluindo o Japão), é uma história linda para qualquer pessoa que já tenha se emocionado só de entrar uma vez na vida numa loja de discos de verdade (e não uma loja de departamento que também vende música). Afinal, uma das minhas fantasias ou sonhos sempre será ser dono de uma loja de discos. 

Russ Solomon, o criador deste pequeno império, revela, ao longo da projeção, todas as facetas de um empreendedor - a euforia do lançamento da loja, os riscos e o sucesso da Tower até a dura queda sofrida nos anos 2000. Ainda assim, o que percebo nas falas e feições de Russ é um sujeito que teve um grande privilégio, conquistado pelo próprio mérito de ter escolhido a vida que ele queria ter vivido - uma característica que sempre me atrai para estes tipos de documentários ou biografias. 

Muito maior do que o nicho Documentário Sobre Música pode abranger, ALL THINGS MUST PASS é um belo exemplar da necessidade de empreendermos pelo que acreditamos. Um dos slogans mais emblemáticos desta mítica loja era o dramático (porém verdadeiro) No Music No Life. Suponho que para este filme, eu adaptaria esse slogan para NO DREAMS NO LIFE.

sábado, 27 de janeiro de 2018

Não existe “guilty-pleasure” (ou: porque eu gosto de Crepúsculo)

Era o ano de 2008 quando o filme Crepúsculo tomou as salas de cinema e os adolescentes se apaixonaram, tanto pelos protagonistas - Robert Pattinson e Kristen Stewart. A história foi uma febre, ilustrando inúmeras capas de revistas, materiais escolares. Pelo menos uma vez por semana você poderia ver alguma menina da sua escola andando com o livro debaixo do braço, na hora do intervalo.

Nessa época, eu tinha 16 anos de idade e ainda era um moleque. Eu fui um desses garotos meio bobocas, inocentes, virgem, cheio de amigos meninos muito parecidos, levemente excluído dos grupos das pessoas mais descoladas – um nerd, apaixonado por filmes e jogos. A paixão por música começava a florescer.

Estudei durante minha adolescência numa escola militar, que para meus padrões, era um lugar absolutamente rígido e de pouquíssimas concessões. Teoricamente, uma das muitas proibições da escola era o namoro, cláusula que sempre coloquei como motivo para meus fracassos e amores não correspondidos (mesmo sabendo que, na realidade, a culpa disso recaía sobre minhas atitudes, ou melhor, a falta delas).

Talvez eu seja muito rígido com meu eu do passado, entretanto eu juro que fiz as pazes com essa apatia que povoou minhas escolhas e meus medos da juventude. Afinal, arrependimentos costumam ser inúteis, especialmente quando há uma tendência de se repetirem erros e atitudes de outrora. É claro que nós nos adaptamos e mudamos, levando em conta que a insistência nos equívocos pode e deve ser analisada sob a perspectiva de um analista, porque tais repetições são descabidas, convenhamos.

Nesse rio inglório do passado, porém, fiz algumas boas escolhas e tomei algumas atitudes que me enchem de orgulho. E uma dessas atitudes envolve justamente o filme alvo deste nosso tópico.

Minha cópia do filme. Até acho os outros filmes da série
divertidos, mas o primeiro ainda é o favorito
Os professores organizaram um passeio com os alunos para uma ida ao cinema durante uma nublada manhã de quarta feira. Nessa época, tínhamos apenas dois cinemas funcionando em Campo Grande: um Cinemark (no outrora único shopping da cidade) e o saudoso Cine Cultura – duas salas com filmes europeus e alternativos, que acabou não resistindo por muito tempo (mencionado numa das primeiras postagens deste blog). A turma iria, logicamente, no multiplex, onde poderíamos escolher dentre dois filmes: Marley e Eu ou Crepúsculo.

Duas filas se formaram; meus amigos se encaminharam para o drama canino; eu fiquei olhando os dois pôsteres, ainda indeciso; alguns colegas começaram a me perguntar “Você não vem?”; voltei a encarar os pôsteres; olhei as filas mais uma vez: meus amigos e praticamente todos os casais de namorados estavam prontos para Marley e Eu enquanto a fila para Crepúsculo era majoritariamente de meninas excitadas para acompanhar o vampiro Edward. Escolhi Crepúsculo.

Alguns zombaram e meus amigos estranharam, mas eu não falei pra ninguém o motivo da minha escolha. Tratava-se de algo tão infantil pelos olhos da maturidade, mas na cabeça de um garoto, fora a cartada de um mestre. Estava eu ao lado de um monte de meninas histriônicas, sonhando com seus vampiros encantados. Preferia ali do que do lado de um monte de casal chorando a morte de um simpático cachorro.

Logicamente que nada ocorreu durante a sessão, pois afinal ainda era eu que estava no cinema, um adolescente cabaço que acreditava estar diante de uma grande vitória moral por ter driblado os outros amigos. Saí do cinema com cara de vitorioso enquanto os outros saíram com seus olhos inchados de lágrimas. Dali voltei direto para casa, pois morava perto do shopping, o que me concedeu mais uma sensação de vitória, ao tomar meu próprio caminho, diferente da massa.

E sobre o que era o filme mesmo? Naquela sessão, eu mal prestei atenção. Mas até hoje, Crepúsculo é um filme que me provoca um bem-estar imenso quando assisto, uma sensação boa de ter vivido alguns dramas da juventude que eu sempre tive a impressão de não ter vivido. No final das contas, eu também fui um adolescente como os do filme, meio estúpido e bastante imaturo.

Muito amigo acha bizarro eu gostar deste filme. Felizmente, não tenho amarras (nem um pingo de amor-próprio, talvez?) para expor isso. Entretanto, meus caros, não há julgamento algum neste mundo que supera uma convicção. E, mesmo soando um tanto dramático, eu afirmo convicto: eu gosto de Crepúsculo!