quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A Hora da Estrela (1985)



Durante o Ensino Médio, somos introduzidos no mundo da Literatura, aprendendo sobre autores e suas contribuições literárias para a humanidade. No 3° ano do Ensino Médio (pelo menos aonde eu estudei), passei a conhecer com mais profundidade a obra da escritora Clarice Lispector. Uma de suas criações mais famosas é a jovem Macabéa, uma mulher pobre e semi-analfabeta que é a protagonista do livro A Hora da Estrela, que foi adaptado para os cinemas em 1985 pela cineasta Suzana Amaral.

A história do livro/filme é bastante crua e realista: nós acompanhamos o cotidiano de Macabéa (Marcélia Cartaxo) que trabalha como datilógrafa junto com sua colega Glória (Tâmara Taxman) num pequeno escritório. Ela mora num verdadeiro cortiço e leva uma vida medíocre e ordinária.

Numa tarde, ela conhece outro imigrante nordestino, Olímpico de Jesus (José Dumont) e os dois passam a se encontrar regularmente. A trama segue a vida de Macabéa até o momento de sua morte, quando ela é precocemente atropelada por um ricaço e encontra a sua hora da estrela (as pessoas finalmente prestam atenção na moça após o seu derradeiro acidente) – no filme, o significado do título não fica tão explicito quanto no livro.

Eu não quero entrar nos detalhes da trama, para não estragar o prazer de quem for assisti-la pela primeira vez. Mas cabe destacar alguns detalhes técnicos da obra: trata-se do primeiro longa-metragem da diretora Suzana Amaral, que faz um excelente trabalho. Ela também assinou o roteiro da obra. Seu trabalho nesse filme lhe rendeu uma indicação ao Urso de Ouro e o Prêmio da Crítica do Festival de Berlim.

Outro prêmio que a obra levou foi o Urso de Prata para Marcélia Cartaxo que faz um trabalho impressionante como Macabéa. Ela despertou minha piedade durante a projeção inteira, um sentimento de pena incrível sobre a fracassada personagem. Afinal, Macabéa é uma personagem sem aspirações, ela só vive e não faz a diferença na vida de ninguém. Se você parar para pensar, essa é uma situação muito ruim para qualquer ser humano que deseja ser tratado como um indivíduo, com seus gostos e desejos pessoais.

O restante do elenco faz um ótimo trabalho, incluindo a participação de Fernanda Montenegro como uma vidente charlatã. Uma curiosidade interessante é que a atriz Tâmara Taxman nasceu em Woodstock!

Macabéa é retratada com uma crueza impressionante como no texto de Clarice. Como a própria cineasta comentou (fonte: Fundação Astrojildo Ribeira), Macabéa "vive num limbo impessoal, desligada de onde veio e do meio onde vive sua parca existência". De fato, Macabéa é uma personagem apática e dispensável para as pessoas que a cercam.

O cunho existencial presente nas obras de Clarice permanece intacto no filme, pelo talento da diretora. Não há uma cena sequer desperdiçada durante toda a projeção. Cenas que aparentam serem insignificantes atestam e aprofundam a reflexão que o expectador pode fazer durante a obra. Tudo é mais profundo (no bom português, o buraco é mais embaixo) do que realmente aparenta ser.
Outro aspecto a ser destacado do filme é a trilha sonora que chega a ser hipnótica e impressionante nos (poucos) momentos em que ela é tocada. Como não elogiar o plano seqüência do início do filme que mostra Macabéa caminhando pela cidade ao som de uma música, no mínimo, indescritível.

A Hora da Estrela é uma obra prima. Um filme muito bonito e marcante, que te levará a reflexões interessantes sobre a natureza das pessoas; uma obra emocionante e digna de figurar entre os grandes clássicos do cinema brasileiro.

2 comentários:

  1. Um filme brilhante, baseado no texto magnífico de Clarice Lispector.

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  2. Então amigo, o flme é excelente e o livro... sem comentários, um verdaeiro monumento literário!

    Continue visistando amigo!

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