quarta-feira, 8 de junho de 2022

O Homem do Norte (The Northman, 2022)


Seguindo uma linha de ser grato pelos pequenos prazeres que a vida pode nos proporcionar, é preciso registrar o quão feliz eu fiquei por ter assistido ao petardo O Homem Do Norte, novíssimo filme de Robert Eggers, diretor do maravilhoso A Bruxa (e do visualmente espetacular, mas ainda não conferido por mim, O Farol). É uma dádiva esse filme ter chegado às salas de cinema da minha cidade, legendado, especialmente após o banho de água fria em meados de Abril, quando sua estreia foi adiada.

Parando para pensar, não há grandes novidades para quem gosta de épicos, entretanto o apuro visual do diretor é um grande atrativo. Eu simplesmente amei a atmosfera imersiva da obra, desde os momentos mais convencionais presentes quanto aquelas cenas mais desafiadoras para uma audiência mais ligada nos blockbusters atuais. Foi reconfortante perceber que durante a sessão a plateia acompanhou o filme silenciosamente, sem gracinhas ou celulares cada vez mais frequentes nas salas de cinema.

Essa imersão foi também proporcionada pelo incrível trabalho de som e trilha sonora. Adorei todo o trabalho de sonoplastia, com a nitidez da percepção de cada golpe de espada, cada tripa estrebuchada e os constantes urros dos personagens. A trilha sonora, distribuída pela gravadora Sacred Bones Records (uma das favoritas da casa), é um verdadeiro banquete ritualístico de tambores e sons que parecem invocar esse passado remoto, tribal e perigoso. 

Preciso destacar a escolha geral do elenco. Desde o protagonista Alexander Skarsgard (com físico inacreditável para este filme), Ethan Hawke, Willem Dafoe, Nicole Kidman, Claes Bang e a já musa deste blog Anna Taylor-Joy - todos entregam ótimas performances, com a dose certa de exagero e fúria, literalmente. 

A experiência da sala de cinema ajudou bastante a me conectar com o filme; não pude deixar de fazer um paralelo com dois filmes assistidos anteriormente: Valhalla Rising, que tinha algo de hermético em seu desenrolar artístico, definitivamente não moldado para a audiência geral e 300, com seu herói gritador e musculoso distribuindo porradaria épica por todos os lados. Eggers pegou um pouco dos dois, adicionou seu toque pessoal de retorno às ancestralidades e nos entregou um dos melhores filmes do ano. Desse aqui, irei atrás do 4k importado.

domingo, 29 de maio de 2022

Livro: Memórias de Um Rato de Locadora por L. G. Bayão


Uma boa adição no espaço da minha biblioteca destinado a livros sobre cinema, Memórias de um Rato de Locadora tem a proposta de listar 80 filmes mais ou menos "esquecidos", como se fossem fitas um tantinho empoeiradas de uma saudosa locadora em detrimento da grande oferta e lançamentos constantes de obras. São filmes que até tiveram seus momentos de maior reconhecimento, entretanto hoje não são tão bem lembrados quanto talvez deveriam. 

Trata-se de uma proposta interessante, mas devo confessar que o título do livro me indicou que iríamos por outro tipo de narrativa, mais memorialista mesmo. Ainda assim, o escritor L. G. Bayão, que também é roteirista de uma penca de filmes nacionais (Kardec, O Doutrinador, entre outros) faz um bom trabalho elencando esses filmes com sinopses suscintas e eficiente em chamar atenção a essas obras. 

Devo elogiar também a seleção de filmes que conta com algumas pérolas esquecidas de fato: pouca gente se lembra da ótima comédia dos anos 90 Empire Records; quem se lembra do divertidíssimo Os Sete Suspeitos com o sempre incrível Tim Curry? Como esqueceram as incríveis perseguições de carro de Ronin, do John Frankenheimer? Ou como encontrar um filme obscuro como a comédia italiana Por Incrível que Pareça, do realizador italiano Uberto Molo?

Entretanto, fica a ressalva quanto a seleção por incluir muito pouco de cinema de gênero, além de não contar com sequer um título de terror, gênero de extrema importância nos mercados de VHS, até os dias atuais. A listagem do livro é coerente, entretanto creio que haveria espaço para citar algumas fitas de horror. 


É um belo trabalho de resgate, mas fica ainda a sugestão de obras de cunho mais pessoal que consigam transmitir a indescritível e inesquecível sensação de se entrar numa videolocadora. Quem sabe eu não deveria investir nesse tipo de projeto...

Abaixo, listo os filmes que são comentados nesta obra:

- À Beira da Loucura
- A Pequena Loja dos Horrores
- A Trapaça
- Alma Corsária
- Almas Gêmeas
- Alucinações do Passado
- Amargo Reencontro
- Apenas Uma Vez
- As Aventuras do Barão Munchausen
- Backbeat: Os Cinco Rapazes de Liverpool
- Bandwagon: Pé Na Estrada
- Bar Esperança
- Bill & Ted: Uma Aventura Fantástica
- Bom Dia, Vietnã
- Boys n the Hood: Os Donos da Rua
- Brazil: O Filme
- Busca Frenética
- Caindo Na Real
- Caminhos Violentos
- Cecil Bem Demente
- Cidade das Sombras
- Contos de Nova York
- Coração Iluminado
- Corra, Lola, Corra
- Cova Rasa
- Delicatessen
- Depois De Horas
- Diário de um Adolescente
- Donnie Darko
- Drugstore Cowboy
- Empire Records: Sexo, Rock e Confusão
- Estranhos Vizinhos
- eXistenZ
- Faca de Dois Gumes
- Festa
- Filhos da Esperança
- Frankie e Johnny
- Garotos Incríveis
- Gattaca: A Experiência Genética
- Gêmeas
- Ghost Dog: Matador Implacável
- Herói Por Acidente
- Hora de Voltar
- Joe Contra o Vulcão
- Jogos de Guerra
- Kafka
- Lost Boys: Os Garotos Perdidos
- Matinee: Uma Sessão Muito Louca
- Mentes que Brilham
- Mera Coincidência
- Miracle Mile
- Mistério No Colégio Brasil
- Nosso Querido Bob
- O Enigma da Pirâmide
- O Grande Golpe
- O Mistério de Lulu
- O Pagamento Final
- O Pescador de Ilusões
- O Processo
- O Último Guerreiro das Estrelas
- Os 12 Macacos
- OS Heróis não tem Idade
- Os Sete Suspeitos
- Paixão Suicida
- Para Sempre na Memória
- Parceiros do Crime
- Por Incrível que Pareça
- Rock & Rule: A Viagem Musical
- Ronin
- Separações
- Stay: A Passagem
- Te Pego Lá Fora
- The Commitments: Loucos pela Fama
- The Wonders: O Sonho Não Acabou
- Um Misterioso Assassinato em Manhattan
- Um Tiro Na Noite
- Um Visto para o Céu
- Vamos Nessa
- Vida de Solteiro
- Vidas Em Jogo

domingo, 1 de maio de 2022

Trailer: Benediction (2021)

 


Que surpresa agradável saber que a vida do poeta Siegfried Sassoon se tornou um novo filme a chegar (ou não) nas nossas telas de cinema. Foi um veterano da Primeira Guerra Mundial que ficou famoso pela temática cristã de sua arte, tornando-se uma interessante história de conversão, especialmente considerando os horrores que ele presenciou durante a terrível guerra. Pelo trailer, é possível que se foquem apenas na sexualidade dele, o que para mim tornaria o filme meio comum, mas creio que precisaremos assistir para ver como o caminho desta narrativa. Produção britânica com o competente Peter Capaldi, só fico a lamentar que dificilmente conseguirei assistir numa tela de cinema. Ainda assim, uma obra que entra no meu radar.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

The Sadness (2021)



Nos últimos anos venho observando em mim mesmo uma resistência referente a como a violência é mostrada em um filme. Para mim, é preciso haver algum sentido nela, algo por trás do simples choque, especialmente se pensarmos nos horrores da vida real. Entendam que eu ainda adoro filmes extremos e a ideia de cineastas quebrando barreiras para exibir cenas chocantes dentro de uma narrativa; minha mais recente aquisição em Blu-ray foi uma cópia de Der Todesking - quem gosta de cinema bizarro provavelmente já está familiarizado, mas se este não for seu caso, uma hora dessas publico uma resenha deste filme por aqui. 

Dito isso, temos o tão comentado THE SADNESS o qual conferi ontem à noite. Uma cidade em Taiwan é assolada por um surto de uma estranha doença que transforma os afetados em canibais e sádicos - uma epidemia de violência. A história acompanha um casal que busca sobreviver diante dessa calamidade, tentando se reencontrar para fugirem dali. 

A tal epidemia é a desculpa para se mostrar uma quantidade inacreditável de sangue e loucura: bebês em saco de lixo, suicídios, perfurações com os mais diversos instrumentos, atropelamentos, olhos extirpados, estupros e muito mais. O cardápio de atrocidades é gigantesco e mostrado sem frescura durante a projeção. Entretanto, a coleção de ideias grotescas mostrada neste filme me passa uma sensação de que o roteirista e diretor Rob Jabbaz pensou em como encaixar cenas visualmente impressionantes com um fiapo de história. 

Sim, é um fiapo de história. Ele até tenta colocar umas explicações perto do final e alguma densidade em suas críticas, entretanto não há substância alguma. Há críticas em relação aos políticos que não sabem enfrentar uma crise (a cena da coletiva de imprensa é a pior do filme, até pela qualidade técnica muito abaixo da mostrada ao longo da sessão), a desinformação, a descrença em relação a condutas médicas e científicas em geral (como se não houvesse motivo para tal, especialmente fazendo-se um paralelo com nossa realidade recente); tais críticas não são colocadas como uma reflexão, mas sim como postulados e, dessa forma, soam esvaziadas como o discurso de universitários "revolucionários".


Uma cena que ilustra bem essa argumentação pobre é o início da cena do metrô, onde a personagem principal, Kat, é incomodada por um senhor que tenta puxar papo e se mostra extremamente inconveniente. A resposta da personagem é ameaçar denunciar o personagem como assediador, o que o leva a ficar resmungando sobre como as mulheres hoje em dia se comportam de uma forma injusta, porque ele apenas estava conversando com ela. Há um óbvio subtexto feminista aqui, especialmente considerando que, sem surpresa nenhuma, o tal senhor é infectado e se torna um dos grandes vilões do filme. 

O que me incomoda é o seguinte: se Kat considerou a conduta do senhor imprópria, talvez ela devesse ter denunciado o cara e não ameaçado, mantendo-se ao lado dele no metrô. A cartada do "vou te denunciar por assédio" é inacreditavelmente utilizada mais uma vez no filme, quando ela precisa do celular emprestado de um "virjão", cujo pano de fundo é uma personagem peituda de anime. E, claro, esse infeliz acaba tendo um destino pra lá de sangrento.

No final das contas, eu acho que acabei por entender a razão do título do filme ser A tristeza. Nós somos quase que como essas bestas feras do filme, apenas a um gatilho de explorarmos as mais diversas formas de violência possíveis de se imaginar. E essa conclusão niilista do diretor é, sem nenhum exagero, algo extremamente depressivo de se concluir após seus enxutos 90 minutos de duração. 

Diante de suas mensagens vazias, sobram as cenas de violência que são tecnicamente interessantes e cheias de sangue, uma maquiagem muito decente em sua maioria. Mas é só isso mesmo. Lembram daquele filme Fim dos Tempos do Shyamalan? Para mim, esse aqui é aquele mesmo filme, porém bem mais porra louca. 

domingo, 17 de abril de 2022

Poster - Crimes Of The Future (2022)


 Eu sou um otimista incorrigível. Muitas vezes, caio do cavalo, mas quando uma notícia como um novo filme de David Cronenberg, após 8 anos desde sua última obra como diretor,  cujo lançamento será logo ali, na esquina dos próximos meses, possivelmente revisitando a temática de horror que marcou sua carreira, é impossível não me conter e ter a convicção de que é bom ser um cara otimista, porque as boas notícias eventualmente surgem. Às vezes, elas demoram, porém elas surgem. Além de um teaser trailer bastante instigante, ler as palavras que Cronenberg nos deixam ainda mais sedentos por este próximo lançamento. Vou reproduzi-las abaixo e lanço uma enquete, cuja resposta provavelmente será silenciosa: devo fazer uma maratona David Cronenberg por aqui no blog? Quem sabe...

CRIMES OF THE FUTURE is a meditation on human evolution. Specifically -  the ways in which we have had to take control of the process because we have created such powerful environments that did not exist previously.
 
CRIMES OF THE FUTURE is an evolution of things I have done before. Fans will see key references to other scenes and moments from my other films. That’s a continuity of my understanding of technology as connected to the human body. 
 
Technology is always an extension of the human body, even when it seems to be very mechanical and non-human. A fist becomes enhanced by a club or a stone that you throw - but ultimately, that club or stone is an extension of some potency that the human body already has.
 
At this critical junction in human history, one wonders -  can the human body evolve to solve problems we have created? Can the human body evolve a process to digest plastics and artificial materials not only as part of a solution to the climate crisis, but also, to grow, thrive, and survive?
 
~ David Cronenberg