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| A melhor coisa deste ano foi a premiação nas categorias de atores principais. E convenhamos que não há melhor forma de se comemorar o Oscar do que ir "destruir" um autêntico podrão! |
Acho um tanto assustador olhar para mim ao longo dos últimos anos e perceber como muitas coisas que me preenchiam já não o fazem mais. Eu me lembro de como a noite do Oscar já foi algo importante: assistir os filmes da temporada, dar os meus "pitacos", torcer e, quase sempre, continuar a sonhar meu sonho mais louco. Aos poucos, porém, tudo isso foi se diluindo a tal ponto de que no último domingo, pelo segundo ano consecutivo, não tive vontade alguma de assistir a cerimônia.
E olha que eu até tentei neste ano - assisti a vários filmes que concorriam e, cá entre nós, tinha até um favorito pessoal cuja chance de vencer era bem remota - Hamnet. Acompanhei as análises em diversos canais do Youtube e até falei bastante sobre isso na minha vida real, muito longe do meu querido e abandonado blog. Mas no fundo, sentia que não conseguia resgatar aquela excitação, aquela vontade de acompanhar e a sensação de pertencimento. Não estava ali.
Foram vários sinais: desde o plano malfadado de acompanhar o anúncio dos indicados enquanto almoçava num local especial (meu carro quebrou justamente no dia), o cansaço ao encarar uma sessão dupla de filmes indicados e ter ignorado todas as premiações anteriores a essa, de forma não planejada - tudo passou voando por mim.
Tenho uma certa desconfiança de onde isso tudo começou: provavelmente após a constrangedora premiação de Melhor Filme de Moonlight, superando o incrivelmente superior La La Land. De uma certa forma, há até algum tipo de beleza cósmica na maneira como isso ocorreu, de forma estranha e inadequada, como algo enfiado goela abaixo, um momento inesquecível a ser esquecido. Maior que a decepção e o choque daquilo foi a sensação de rachadura num certo idealismo que eu tinha sobre a premiação ser sobre a arte do cinema em si.
Sei que isso pode soar como algo meio imaturo, mas o golpe na ocasião foi forte para eu assimilar. Um filme que literalmente me fez sonhar, sair dançando por aí, sedento por esperança e devidamente alimentado com a possibilidade de um dia ser capaz de produzir algo que provocasse tal efeito em outra pessoa foi preterido por uma obra supostamente realista e sensível em aspectos que iam muito além do mundo do cinema.
Dali em diante, sinceramente, até tivemos bons anos de premiações, excelentes filmes concorrendo ao Oscar, alguns prêmios de fato emocionantes - mas quando me lembro de que é noite de Oscar, aquele momento fatídico de 2017/2018 vem a minha mente.
Como esquecer também o vergonhoso prêmio de Will Smith, que agrediu um colega de trabalho no palco e, depois disso, foi aplaudido como se nada tivesse acontecido? Nenhuma fala, nenhum protesto - simplesmente uma sensação de abuso e conivência da classe artística. O pior de tudo? Após a premiação, foi ligada a máquina trituradora de carreiras de cancelamento, ao invés de se pensar numa justa punição...
A mesma classe que fez beicinho não aplaudindo o diretor Elia Kazan quando levou um Oscar Honorário - a premiada deste ano Amy Madigan, nascida em 1950, puxou um protesto na ocasião, apropriando-se do ressentimento típico daqueles que imaginam o que é uma verdadeira perseguição (ela disse que o pai dela foi vítima do McCarthismo, trabalhando analista político/ jornalista, bem distante da esfera de Hollywood). Nada como a seletividade e estar do lado de uma certa galera, não é mesmo?
Nesse ponto, confesso que me pergunto: e agora? "From despair to where?" Como será no próximo ano?
Confesso que se existe um traço da minha personalidade que luto para não ser apagado é a esperança. Talvez eu ainda fique enfastiado com as campanhas de Oscar iminentemente políticas (vocês devem saber do que eu estou falando), os enfadonhos acenos politicamente corretos e até a torcida contra ou a favor que se forma diante de algo. Contudo, ainda sonho para que Hollywood recupere algo que realmente se perdeu ao longo desses anos: a aura.
A aura é curiosa porque diante da impenetrabilidade dela, há um certo atiçamento, o despertar de um desejo de se sentir pertencente àquilo ou ao menos para se lutar por, quem sabe, um dia, fazer parte daquilo. É como aquela roupa bonita na vitrina, tão perto e tão longe, acessível de maneira fácil ou, na maioria das vezes, difícil.
Espero não soar mórbido, mas ao longo dos últimos anos, o momento da premiação que mais me aproxima dessa sensação é o In Memoriam; mesmo de forma muitas vezes apressada, canhestra e por vezes esquecendo nomes relevantes, a homenagem aos que se foram, com uma brevíssima lembrança de seus trabalhos nos remete aos grandes filmes que já nos fizeram sonhar e como Hollywood já foi, sim, uma literal fábrica de sonhos.
Enquanto escrevo essas linhas, porém, olho para os últimos 8-9 anos de premiações e vejo alguns grandes filmes: vejo Oppenheimer, Coringa, A Baleia, Parasita, Três Anúncios para um Crime, Green Book, Era Uma Vez em Hollywood, Duna, Nada de Novo no Front, OS Fabelman, Top Gun Maverick, Os Rejeitados... Sim, tivemos alguns grandes filmes prestigiados e lembrados ao longos do tempo.
Acompanharei a Temporada do próximo ano, como sempre faço, aliás. Sei que provavelmente teremos A Odisseia do Christopher Nolan, por lá. Já existem conversas sobre alguns filmes, mas tudo muito precoce. Cá para nós, não tenho nenhuma pressa nisso. Tem tantos lançamentos interessantes neste ano, tanto festival legal por vir... Ainda mantenho meus sonhos, mas no final é mais sobre o caminho do que o destino em si.

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