domingo, 10 de janeiro de 2016

Star Wars: O Despertar da Força (Star Wars: The Force Awakens, 2015)


There's been an awakening. Have you felt it? 

Muito se tem dito sobre a nova aventura do universo "Guerra nas Estrelas"; assim, não acho que terei novidades nessa resenha. Em todo caso, já digo que gostei bastante do filme, mas o "rasgação de seda" generalizada me impressiona, mas não me surpreende.

Não me surpreende pois o tão divulgado novo Star Wars foi o filme mais cercado de expectativa dos, sei lá, últimos dez anos. E frente a entrega de uma obra inegavelmente competente, a reação geral foi de imensa e intensa paixão. 

E O DESPERTAR DA FORÇA não merece todo esse amor? Talvez sim, mas o filme tem sua dose de erros, quase todos relacionados ao roteiro. Se pararmos para pensar, encontramos uma boa dose de equívocos graves. E o fenômeno de adoração em torno da obra foi tão absurdo que alguns resenhistas enalteceram essas falhas de script com argumentos estapafúrdios de que esses "furos" são típicos da série Star Wars, o que demonstraria o quão fiel J J Abrams foi em preservar esse suposto "charme" da franquia! Não me façam rir. 


Apesar disso, eu gostei do filme. E gostei, principalmente, da tríade de novos personagens principais - Rey (Daisy Ridley), Finn (John Boyega) e o vilão com potencial imenso de se tornar memorável Kylo Ren (Adam Driver). São três personagens densos, complexos e bem construídos, que me cativaram bastante. Preciso citar também Oscar Isaac (que precisa de muito mais espaço no próximo filme com seu piloto Poe Dameron) e Domhnall Gleeson, perfeito como o General Hux (um ator que definitivamente está no meu radar, desde sua atuação no clássico pessoal Never Let Me Go).

E J J Abrams explora muito bem toda a mitologia da franquia, seus personagens históricos (é uma experiência maravilhosa ver Harrison Ford incorporando Han Solo) e o visual - atualizado com inteligência e no ponto certo da nostalgia. Toda a força e esplendor da marca explodem na telona e é lógico que meu coração nerd se derreteu durante a projeção. O DESPERTAR DA FORÇA é, sem desmerecer, uma refilmagem esperta e bem feita do episódio IV, com muito mais acertos do que erros. E eu mal posso esperar pelos próximos filhotes desta franquia.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Vilmos Zsigmond (1930-2016) & Haskell Wexler (1922-2015) - Dois Mestres da Direção de Fotografia



"Cinema needs good images" - Vilmos Zsigmond


"If you want to compare my photography to any great painter, I love it!" - Haskell Wexler

  


Duas excepcionais análise de palheta da fotografia dos filmes Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977), por V. Zsigmond e Um Estranho no Ninho (1975) por H. Wexler - dois diretores de fotografia geniais. Essas análises de palheta foram retiradas do excelente site Movies In Color, que merece sua visita. 

sábado, 2 de janeiro de 2016

Desventuras de um cinéfilo 004 - O Fim das Locadoras

Fonte: Campo Grande News
Dia desses, tendo acabado de voltar de uma viagem para São Paulo e, por esse motivo, um tanto ausente das redes sociais, descobri que a sede da locadora 100% Vídeo estava fechando as suas portas e vendendo todo seu acervo. Uma oportunidade ótima para se aumentar a coleção mas não há motivo para celebração alguma...

Eu sempre fui um cara completamente apaixonado por locadoras e esse era O passeio da minha infância. Antigamente, antes do advento do DVD (que eu já enxergava com olhos desconfiados), as locadoras reinavam com suas fitas, seus lançamentos e a disputa pelo aluguel dos mesmos. Era comum a sexta-feira à noite ser reservada para uma visita numa locadora, para escolhermos filmes do final de semana. 

Mas, nós já sabemos o que aconteceu: internet banda larga, download de filmes, preços absurdos, netflix e todos os fatores que culminaram no fechamento em massa das locadoras. As primeiras a morrer foram justamente as melhores: locadoras de bairro, com acervo antigo, maior parte em fita VHS, começaram a vender seu acervo e fechar as portas. Lembro-me, nitidamente, de um dia que fui com meu querido tio Dario numa dessas locadoras, lá pelo ano de 2004. Como criança, ainda não tinha dinheiro para torrar nesse tipo de coisa, por isso adquiri apenas um filme, a VHS de O HOMEM SEM SOMBRA (ainda era um garoto no mundo do cinema...), enquanto meu tio adquiriu o sensacional A NOIVA DE RE-ANIMATOR. Foi uma tarde inesquecível...

Mais tarde, as grandes locadoras começaram a vender seu acervo em VHS. Aqui em Campo Grande, tínhamos uma rede de locadoras chamada Héllios Vídeo, que frequentávamos assiduamente. Numa tarde, eu e o mesmo tio, companheiro das melhores aventuras, fomos fazer umas comprinhas e eu levei oito filmes, que precisei esconder no caminho de ônibus para casa, porque sabia que minha mãe não ficaria muito satisfeita. Meu tio, cúmplice, usou sua mochila para disfarçar as fitas. Minha sorte é que naquele dia haveria uma reunião de um grupo de budistas em minha casa e pude contrabandear os filmes para o meu quarto enquanto minha mão organizava a tal reunião.

Nessa época, uma anedota particularmente agradável foi quando eu e minha irmã fomos visitar minha avó e meu tio e ele conseguira locar a disputada fita dupla d'O Senhor dos Anéis, dublada. Com um X-Tudo especialmente preparado pelas mãos habilidosas da Vó Glória, mergulhamos no universo de Tolkien numa sexta-feira à noite.


Comprar filmes não era das tarefas mais fáceis. Quem nasceu depois do DVD, não sabe que as Lojas Americanas não tinham essa variedade de filmes como tem hoje em dia. As únicas maneiras de se comprar filmes era quando as locadoras fechavam ou se desfaziam de seu acervo ou quando acontecia uma feira de fitas VHS promovida pela 100% Vídeo e o Shopping CG - antes da franquia abrir sua sede. Minha lembrança é de pelo menos duas dessas feiras, lá nos anos 90, onde pude começar uma modesta coleção de filmes - um dos primeiros títulos comprados foram Jurassic Park e Esqueceram de Mim 1 e 2 (que substituíram uma gravação em VHS que assistíamos quase todo dia quando crianças e, finalmente permitiram conhecer as vozes originais dos atores - mas as falas do filme dublado eu me lembro até hoje).


Filmes que comprei. Infelizmente, a grana estava curta, mas
acho que pude fazer umas boas aquisições.
As maiores locadoras do Brasil nunca chegaram em Campo Grande no auge desse negócio. A própria 100% Vídeo só deu as caras por aqui depois de 2003 (uma estimativa, não consigo recordar com precisão). De vez em quando, alguns donos de locadora me davam aquelas revistas/catálogo e eu conhecia marcas de locadora como A Poderosa ou 2001 Vídeo, mas nenhuma teve sede em Campo Grande. Assim, o fim da 100% Vídeo não mexeu com meu coração como aconteceu com a Héllios Vídeo (eu ainda escreverei sobre a importância dessa locadora, em outra postagem). 

Contudo, não pude deixar de ficar reflexivo enquanto escolhia alguns filmes, seguindo o meu critério pessoal de filmes que eu dificilmente encontrarei numa impessoal porém gratificante baciada das Lojas Americanas. Tenho a impressão de que esta foi a última locadora de Campo Grande. Todas as outras já fecharam suas portas. E para nós, cinéfilos que acompanhamos e frequentamos esses ambientes, não há como não ficar melancólico. 

Estava eu naquele literal mar de filmes, DVDs espalhados por todos os cantos e, enquanto escolhia, me surpreendia com alguns achados, encontrava amigos e calculava os gastos, essas memórias todas me atingiam de maneira fulminante. Tudo que é bom, realmente dura pouco. 

Talvez, eu soe extremamente piegas, mas eu gosto de imaginar o paraíso como uma grande locadora, a mais imensa que você possa imaginar e passar a eternidade perdido por entre suas prateleiras e fitas. 

O acesso que temos ao cinema do mundo todo é maravilhoso. Gosto muito do serviço do netflix e sou assinante. Adoro comprar filmes mais difíceis de achar para compor minha coleção. Mas tenho a impressão que nenhuma dessas coisas conseguirá substituir a magia das boas e velhas locadoras. E não creio que as novas gerações irão desfrutar alguma experiência parecida, como essas descritas. 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Der Samurai (2014)


 Vamos começar o ano de 2016 com dois pés no peito dos estimados leitores: finalmente conferi o tão prestigiado filme terror/humor negro/drama psicológico/filme de arte DER SAMURAI que agradou muita gente e eu acabo de me incluir nessa lista. 

O jovem policial Jacob (Michel Diercks) atua num vilarejo alemão, sem emoção alguma. Talvez por isso ele tenha interesse por um lobo que ronda a região, incomodando alguns moradores. Nesse vilarejo, todos se conhecem, toda informação é compartilhada e rivalidades da época da infância parecem se manter até a idade adulta. 


Numa noite e dentro de circunstâncias que não mencionarei aqui, Jacob encontra um exótico personagem: um homem com vestido branco campestre e uma katana (Pit Bukowski). E nesta noite, numa jornada de auto-descobrimento e situações inexplicáveis, o policial vai acompanhar a trilha de destruição deixada por esse "samurai urbano travesti".

Esse trabalho de estreia do Till Kleinert é um verdadeiro tour de force numa trama impressionante e mais profunda do que podemos pensar à primeira vista. O roteiro nos fornece esses dois personagens absolutamente fascinantes: enquanto o policial é transparente em sua psiquê, mas profundo (por exemplo, a admiração que sente pelo seu antagonista, nos levando até a acreditar que o personagem possa se sentir atraído sexualmente pelo algoz); já o samurai é uma personagem mítica, envolvente, atraente e misteriosa, um verdadeiro enigma que não é completamente respondido durante a projeção (então, que os sedentos por respostas já fiquem sabendo que o filme não responderá todas suas interrogações).


DER SAMURAI é um filme de arte - extremamente visual, com algumas cenas realmente lindas e impressionantes, especialmente quando o diretor usa recursos de iluminação como lanternas e a luz de fogueiras, dando ao filme um tom escuro e ainda mais soturno. O forte aqui não é bem a trama, mas as análises que fazemos em torno dos personagens e a beleza plástica da obra. 

Em curtos 79 minutos, Kleinert compôs um exemplar marcante do que alguns consideram o Renascimento do Cinema de Horror Alemão. Não acompanho com profundidade para fazer coro a essa afirmação, mas posso concluir que DER SAMURAI é um dos melhores, senão o melhor exemplar dos últimos dez anos do cinema de arte/terror europeu e um ótimo ponto de partida para quem quiser conhecer e se aventurar no cinema extremo mundial.