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sábado, 11 de abril de 2020

Ich Bin Dann Mal Weg (2015)



Há alguns anos eu li o ótimo livro "Volto Já!" escrito pelo alemão Hape Kerkeling. Trata-se do bem-humorado diário de viagem do próprio autor quando ele fez a peregrinação do Caminho de Santiago de Compostela, suas peripécias e desventuras. Como o assunto me interessa bastante, foi uma leitura saborosa e divertida, me levando em diversos momentos a imaginar como seria um filme adaptando-a. Ao terminar o livro, descobri que algum produtor já tivera essa ideia e finalmente, quase 2 anos depois de me interessar pelo projeto, consegui assití-lo.

Trata-se de uma adpatação bastante fiel, com o protagonista sendo interpretado pelo ator Devid Striesow, uma cara bastante conhecida para quem acompanha com mais atenção o cinema alemão atual. É uma proeza que o filme tenha conseguido manter a simpatia que nutrimos pelo protagonista, mesmo quando percebemos suas falhas e sua rabujentice (devidamente castigada pelo próprio Caminho, como o filme nos mostra). É um personagem muito humano e a performance captura as impressões tidas durante a leitura.

Outro ponto a favor é que o filme nunca se assemelha a um road movie, felizmente (um gênero que eu acho um tanto enjoativo). Sua estrutura vai e volta no tempo, mostrando um pouco da infância do comediante, desde seu acidental começo no mundo da comédia até o início de sua ascensão; mesmo estes momentos do passado que podem ter sido difíceis durante sua vivência, após a distância do tempo e a segurança de sua imutabilidade, são vistos com simpatia e graça, pois são estes momentos que nos definem, também. E as desventuras de Hape durante o trajeto também farão parte desse complexo mosaico chamado Hape Karkeling. A percepção disso parece uma das clarezas trazidas aos peregrinos desta milenar rota.

Toda essa sensibilidade é passada, assim como a mística que cerca o Caminho. As lindas paisagens, a completa imersão, as pessoas, os diferentes idiosmas, os albergues, os peregrinos - tudo é muito bem expressado pelo filme, tornando-o ainda mais atrativo para quem sonha ou já sonhou em percorrer a rota de Santiago de Compostela.

Sinceramente, é uma pena que este ótimo filme provavelmente permanecerá inédito no Brasil, talvez um dia sendo exibido nas estéreis plataformas de streaming. Em todo caso, preciso adquirir minha cópia pois, sem dúvida, esta é uma obra que eu revisitarei muitas outras vezes. 

sábado, 16 de julho de 2016

Supermarkt (1974)


Um dos ambientes ou atmosferas que mais me fascinam é a Alemanha da Guerra Fria - suas cidades cinzas, decadentes, cheia de fumaça de cigarros, prostitutas e música, parecendo um prelúdio para histórias cyberpunks. Um misto de decadência e perigo, é a essência de uma mentalidade punk/industrial/urbano - que certas obras da ficção conseguem representar muito bem.

SUPERMARKT acompanha Willi (o não-ator Charly Wierczejewski), um problemático jovem das ruas, que sobrevive com pequenos delitos, fugindo da polícia, se envolvendo com bandidos e prostituição. E sua jornada de sobrevivência nas hostis ruas de Hamburgo, nos anos 70, é marcada de desilusão, violência e melancolia. 


Inserido nesse contexto social, SUPERMARKT é uma obra do praticamente desconhecido Roland Klick, diretor alemão cultuado na Europa, mas praticamente desconhecido por essas bandas. Dono de uma filmografia intrigante (pretendo me aprofundar em seus filmes, ao longo do ano), Klick ficou conhecido por ter sido o primeiro pretendido na direção do cultuado Christiane F, mas acabou sendo demitido pelo produtor Bernd Eichinger. 

É interessante que SUPERMARKT guarda muitas semelhanças com o best-seller Christiane F: a atmosfera carregada, a melancolia, a trama de jovens desencaminhados - como eu cheguei a ler numa resenha do excelente blog Soiled Sinema, "uma espécie de irmão mais novo e não junkie".


Uma das coisas que mais gosto em SUPERMARKT é a fotografia do filme. É uma obra escura, com seus cenários absolutamente decadentes - em algumas cenas mal conseguimos distinguir as feições do protagonista. E algumas cenas de ação reservam uma urgência típica dos policiais dos anos 70, como a fuga do protagonista da delegacia de polícia e o roubo no estacionamento do supermercado, próximo ao final da película. O lado artístico do diretor se sobressai nessas tomadas, assim como a última cena do filme, muito bela, fugindo de explicações óbvias que assolam o cinema atual. 

Ancorado pela música "Celebration", de Marius West - uma balada folk bem bonita, SUPERMARKT é o típico cinema quase impossível de se encontrar nos filmes atuais. A música guarda um otimismo quase juvenil, presente em nosso personagem principal, que primeiramente poderia destoar, mas depois se encaixa na opressiva e cinzenta realidade da história. A distribuidora do filme, em dvd, na Europa, classificou SUPERMARKT como uma mistura de Operação França com Juventude Transviada e, honestamente, eu não teria como classificar melhor essa pérola desconhecida do cinema alemão. 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Der Samurai (2014)


 Vamos começar o ano de 2016 com dois pés no peito dos estimados leitores: finalmente conferi o tão prestigiado filme terror/humor negro/drama psicológico/filme de arte DER SAMURAI que agradou muita gente e eu acabo de me incluir nessa lista. 

O jovem policial Jacob (Michel Diercks) atua num vilarejo alemão, sem emoção alguma. Talvez por isso ele tenha interesse por um lobo que ronda a região, incomodando alguns moradores. Nesse vilarejo, todos se conhecem, toda informação é compartilhada e rivalidades da época da infância parecem se manter até a idade adulta. 


Numa noite e dentro de circunstâncias que não mencionarei aqui, Jacob encontra um exótico personagem: um homem com vestido branco campestre e uma katana (Pit Bukowski). E nesta noite, numa jornada de auto-descobrimento e situações inexplicáveis, o policial vai acompanhar a trilha de destruição deixada por esse "samurai urbano travesti".

Esse trabalho de estreia do Till Kleinert é um verdadeiro tour de force numa trama impressionante e mais profunda do que podemos pensar à primeira vista. O roteiro nos fornece esses dois personagens absolutamente fascinantes: enquanto o policial é transparente em sua psiquê, mas profundo (por exemplo, a admiração que sente pelo seu antagonista, nos levando até a acreditar que o personagem possa se sentir atraído sexualmente pelo algoz); já o samurai é uma personagem mítica, envolvente, atraente e misteriosa, um verdadeiro enigma que não é completamente respondido durante a projeção (então, que os sedentos por respostas já fiquem sabendo que o filme não responderá todas suas interrogações).


DER SAMURAI é um filme de arte - extremamente visual, com algumas cenas realmente lindas e impressionantes, especialmente quando o diretor usa recursos de iluminação como lanternas e a luz de fogueiras, dando ao filme um tom escuro e ainda mais soturno. O forte aqui não é bem a trama, mas as análises que fazemos em torno dos personagens e a beleza plástica da obra. 

Em curtos 79 minutos, Kleinert compôs um exemplar marcante do que alguns consideram o Renascimento do Cinema de Horror Alemão. Não acompanho com profundidade para fazer coro a essa afirmação, mas posso concluir que DER SAMURAI é um dos melhores, senão o melhor exemplar dos últimos dez anos do cinema de arte/terror europeu e um ótimo ponto de partida para quem quiser conhecer e se aventurar no cinema extremo mundial.