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sábado, 15 de outubro de 2022

Inju - O Despertar da Besta (Inju, la bête dans l'ombre, 2008)

 

Certas coincidências são bem agradáveis de perceber quando se é um colecionador de qualquer coisa. No meu caso, uma das minhas coleções é de filmes e meu padrão de compras é bastante difícil de se identificar para qualquer um que não esteja dentro da minha cabeça. Há uns meses eu fiquei completamente extasiado em completar a trilogia Turbulência e, recentemente, venho comprando títulos lançados no Brasil da Hollywood Studios... são idiossincrasias charmosas do mundo do colecionismo, pelo menos para mim. E, foi numa dessas observações da estante que percebi, estupefato, que adquiri uma quantidade considerável de filmes do diretor Barbet Schroeder, sem ter planejado tal movimento. Engraçado, não? Até onde eu sei, ele não é dos diretores mais festejados e conhecidos por aí, até mesmo por mim e, quando me dei conta, tinha três dvds dele nas minhas estantes...

O filme que comentarei brevemente por aqui não é, aliás, de uma leva recente de compras. Pelo contrário, está na minha estante há bastante tempo, tendo sido comprado na última vez que presenciei o "enterro" de uma locadora, no caso a 100% Vídeo da Avenida Afonso Pena, uma das últimas que pereceu em Campo Grande, mais ou menos em 2012, se não falha minha memória. Apesar da mídia estar levemente arranhada, provocando alguns engasgos durante a transmissão (algo sempre irritante), há algum charme em pegar a capinha do dvd e ver aquele selo de "suspense", com a logo da antiga empresa, na lombada do filme - meus amigos, eu sinto muito falta do ambiente das locadoras...

Deixando de lado essas divagações, vamos comentar um pouquinho sobre INJU, um verdadeiro neo-noir dirigido com simplicidade e elegância pelo senhor Schroeder. A trama gira ao redor de um escritor francês de livros policiais (Benoit Magimel) cuja carreira está em plena ascensão, sendo considerado o próximo grande nome do gênero, sucedendo a última grande sensação das tramas policiais - um escritor misterioso japonês, cuja identidade nunca foi revelada, com os livros extremamente cruéis e todo uma aura cult em torno de sua figura. Essa rivalidade profissional entre os escritores acaba assumindo contorno bizarros, especialmente quando o tal autor japonês resolve, durante uma turnê do novato no Japão, ameaça-lo de diversas formas, como se transpusesse para a vida real uma das tramas de seus livros, adicionando-se a figura enigmática e hipnótica de uma gueixa (Lika Minamoto) na história.

 


 Naturalmente, o filme tem suas doses de exagero, especialmente no desenrolar da trama, mas nada que prejudique a sessão, a não ser que se esteja de extrema má vontade. Senti ao longo do filme uma espécie de admiração do diretor diante da sociedade japonesa e alguns de seus elementos culturais mais únicos - o universo das gueixas. Escapa-se da armadilha da reverência alegórica para se explorar uma sinergia de ocidente/oriente bastante interessante, algo similar em filmaços como Chuva Negra e Marcado para Morrer, dois outros policiais que se passam no Japão, representando outros aspectos bastante específicos da cultura japonesa (no caso Yakuza e Samurais, respectivamente).

Uma das coisas mais legais de INJU é a mistura equilibrada de violência, mistérios, investigação e surpresas do filme, embalado por uma interessante trilha sonora e um bom ritmo geral da obra, levando-me a considerá-la como um autêntico neo-noir. Outro aspecto interessante é a mistura de francês e japonês ao longo do filme, bastante agradável aos meus ouvidos. Isso sem falar nos elementos eróticos do filme, em especial a senhorita Lika Minamoto que entrega uma performance absurdamente sensual, inocente e misteriosa ao mesmo tempo.

Trata-se de uma adaptação de um romance escrito pelo autor japonês Edogawa Rampo, importante autor de literatura de gênero japonesa, ainda sem tradução em nosso mercado editorial. Suas histórias foram adaptadas para o mundo dos cinemas dentro do Japão, sendo este escritor considerado uma espécie de Edgard Alan Poe de lá (ele mesmo admirava o autor norte americano).

Distribuído pela Sven Filmes no Brasil, não é um título tão fácil de se achar por aí. Pelas andanças na internet, vi que tem uma cópia em blu-ray lançada na Alemanha que certamente teria seu espaço nas minhas estantes. Um filme eficiente, interessante e que, certamente, eu revisitaria num futuro não tão distante assim.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Midnight Express #008 - A volta (Dá para acreditar que a última dessas foi em 2016?)

As Falsas Tatuagens (Les Faux Tatouages, 2017)

Meus amigos, que filme incrível. Após seus curtos 86 minutos, eu fiquei por um longo tempo pensativo, refletindo sobre um par de coisas. Desde o fato de ser um tipo de história a qual eu já fantasiei por muito tempo, o excelente uso da música no seu decorrer, até a riqueza no storytelling que não subestima o expectador - para mim, tudo funciona em AS FALSAS TATUAGENS. É uma história de amor com a música punk como pano de fundo, sem inovações ou piruetas narrativas - apenas uma bela trama muito bem contada. 

Possivelmente, meu lado adolescente foi capturado pela obra, mas impossível não destacar a duração precisa do filme e a mensagem já batida de que muitas coisas maravilhosas em nossas vidas não duram para sempre. Lembrou-me os maravilhosos filmes do John Hughes dos anos 80, uma ótima leitura atual de uma trama que se tornaria clássica nas mãos dele. Aliás, não há dúvidas que, se fosse uma produção norte americana, certamente teria conquistado um público muito maior. Definitivamente, terei este filme e sua trilha sonora na minha coleção. E quem conhecer a protagonista Rose-Marie Perrault, faça o favor de lhe passar meu telefone...

Armas Lendárias da China (Shi Ba Ban Wu Yi, 1982)

Quem tem netflix, tem de aproveitar porque tem muito filme chinês dando mole no catálogo, do maravilhoso universo da Shaw Brothers. ARMAS LENDÁRIAS DA CHINA é um título menor, com bastante ação e a presença sempre magnética do Gordon Liu, mas em termos de história e ritmo, o filme é um pouco intrincado e eu diria até meio confuso. Ainda assim, a linda paleta colorida, as belas lutas, o bonito som do idioma, as atuações exageradas  - todos os elementos que me tornaram apaixonado por esse tipo de cinema estão ali. Recomendo para fãs já iniciados.

A Última Fortaleza (The Last Castle, 2001)

Caramba, como eu gosto desse tipo de filme. Após uma injusta condenação, um lendário general americano é mandado para uma prisão militar, onde acabará entrando em um embate com o diretor da prisão. Robert Redford é o general e o saudoso James Gandolfini é o diretor da prisão, numa atuação incrível. Delroy Lindo e Mark Ruffalo são coadjuvantes de luxo. É um roteiro diferenciado, meus amigos, uma excelente construção de personagens com intérpretes inspirados. Há uma grande mistura de generos: filme de prisão, thriller militar, filme de tribuna, etc. Talvez, poderia ter pegado um pouco mais leve no drama em seu desfecho, mas ainda assim uma bela gema escondida da década passada.

Jogo de Espiões (History Is Made At Night,1999)

Foi uma interessante sessão: Bill Pulmann e Iréne Jacob estrelam este barato thriller de espionagem passado na Finlândia. Tudo gira em torno de uma fita de sacanagem com segredos militares russos e o interesse despertado na mesma pelos dois lados antagonistas da Guerra Fria. É aquele típico filme da saudosa sessão Supercine - produção de baixo orçamento, com dois atores conhecidos, sem muita ação, muito falatório, trama meio boba e tem até uma trilha sonora de free jazz bem maluca. Eu adoro esse tipo de produção, mas sei bem que sou minoria. Certamente, cai muito bem numa noite de chuva e um bom copo de chocolate quente. 

Os Amantes do Círculo Polar (Los Amantes Del Circulo Polar, 1998)

Mais um filme gélido, com a Finlândia de pano de fundo, mas muito mais artístico - OS AMANTES DO CÍRCULO POLAR é uma melancólica história de romance sobre dois adolescentes que se apaixonam quando crianças e, pelas circunstancias estranhas do destino, acabam vivendo um romance proibido. Dirigido por Julio Medem, um cineasta espanhol conhecido dos aficionados pelo cinema cult europeu, a obra é uma das mais melancólicas que já assisti, até seu desfecho surpreendente. É bonito e triste, bem filmado e com uma linda fotografia. E era um dvd que eu procurava há muitos anos para integrar minha coleção.

Furie (2019)

Meu primeiro filme do Vietnã, FURIE é uma fita de ação bem típica para quem gosta do gênero e já assistiu seus exemplares mais famosos. A trama gira em torno de uma mãe enfrentando tudo e todos em busca de sua filha. É legal ver a protagonista tomando porrada e ainda assim indo pra cima da bandidada, mas é notável a influência  do cinema sul-coreano na narrativa, quando o diretor resolve encher sua obra com drama, uma decisão pra lá de questionável. Lá pela metade da película, aparece o irmão da protagonista, que não adiciona porcaria nenhuma a não ser alguns irritantes minutos a mais. Foi legalzinho, mas só aguento uma dose.

The Dirt (2019)

Esqueçam as críticas que detonaram este filme injustamente: THE DIRT é uma cinebiografia divertidíssima (e em alguns momentos, bem chocante) da banda de Hard Rock Motley Crue - banda aliás que nunca me cativou, mesmo eu tendo uma fase que adorava esse tipo de som. O elenco está OK e a direção tem personalidade, mas definitivamente o chamariz do filme são as "anedotas" (ou melhor, loucuras) que permearam a história da banda durante seus anos gloriosos. Em alguns momentos, funciona quase como uma comédia bem escatológica (a cena com o Ozzy é, de fato, grotesca), mas há espaço para drama pesado e não tão bem executado. Me divertiu e quem estiver procurando um divertimento mais ligeiro, pode assistir sem compromisso - THE DIRT cumpre essa missão.

Kardec (2019)

Deixando de lado crenças, fé ou pitacos alheios, o Espiritismo pode render uma interessante série de histórias que cairiam bem como filme. A história de seu criador, Alan Kardec, poderia ser uma bela cinebiografia, mas fica muito aquém de seu potencial. A pobreza da produção é notável, assim como a fotografia escura e a sonoplastia ruim. Porém, o que mais incomoda é o roteiro precário e juvenil, totalmente sem ritmo, que empilha informações do biografado sem decidir qual rumo tomar. Os diálogos então... Acredito que é um território interessante a se explorar pelo cinema nacional, mas os amadorismos da produção precisam ser superados.

Holmes e Watson (2018)

É assustador perceber que o último filme protagonizado pelo Will Ferrell que eu realmente gostei foi de 2007 (Escorregando para A Glória). Tudo o que você leu de ruim sobre este filme está correto, além de um tenebroso agravante - o filme não é engraçado. A ideia de Ferrell e Jon C Reilly como Sherlock Holmes e Watson só funciona no papel mesmo. As piadas são ruins, a trama não é envolvente e o filme parece ter umas 4 horas de duração. Tem uma ou outra sacada até indutora de sorrisos (como a paródia ao filme do Guy Ritchie), mas no geral é uma grande farsa. Precisamos de um bom filme seu, Will!

Vingadores Ultimato (Avengers: Endgame, 2019)

O culto à Marvel é bem cansativo e xarope, mas convenhamos que eles entregam sim ótimos entretenimentos e não há como negar o esforço e a competência no encerramento da saga de seus heróis. Eu consegui assistir o filme no dia da estreia e me surpreendi com a sala lotada e absolutamente comportada durante a sessão - um fenômeno que por si só já é histórico em tempos de público mal educado em salas de cinema. 

Como amante de histórias em quadrinhos, eu vibrei junto nas diversas cenas épicas que o filme reserva, incluindo uma batalha final realmente espetacular. A junção de um elenco tão impressionante e o roteiro que reserva bons espaços para todos os seus MUITOS personagens (além de focar no drama com alguns personagens como o Gavião Arqueiro - um dos meus favoritos) são históricos. Talvez, minha maior crítica ao filme é que o filme é bastante previsível ao contrário do seu antecessor no que tange a história. Porém, VINGADORES ULTIMATO reserva muita emoção real e bem feita. Ao final, foi um evento mundial que eu gostei de fazer parte do meu jeito, pois por alguns momentos me senti um adolescente numa sala de cinema, sem o peso opressivo de celulares e conversas paralelas durante a sessão. 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

MyFrenchFilmFestival 2017

Galera, todo começo de ano já é uma tradição nesta casa o MyFrenchFilmFestival - festival de cinema online, gratuito, com saborosas produções em língua francesa (para ser mais exato - 28, dentre longas, curtas e animações), em streaming do dia 13 de janeiro ao dia 13 de fevereiro. Trata-se da sétima edição do evento, uma iniciativa simplesmente maravilhosa e que nós, cinéfilos, não podemos ignorar. Ano passado, eu prometi uma cobertura do festival, mas acabei não cumprindo a promessa - cheguei a assistir quase todas as obras, mas falhei na escrita de textos; vamos ver se consigo fazer diferente neste ano. Independente disso, o convite fica de pé e, sem sombra de dúvida, vou aproveitar essa celebração da língua francesa e da sétima arte! Clique neste link para mais informações e a realização de um cadastro rápido para desfrutarem as obras.

terça-feira, 22 de março de 2016

Onda De Calor (Coup de Chaud, 2015)



Numa vila rural francesa abalada por um verão incrivelmente quente, o problema dos agricultores não se restringe à seca e às colheitas má-sucedidas. Um jovem completamente deslocado e excêntrico, com ataques de violência e comportamento errático (Karim Leklou) é visto com maus olhos pelos cidadães - especialmente num momento em que os nervos se encontram à flor da pele a partir de uma circunstância trágica ocorrida no decorrer do filme.

Este filme foi uma das melhores projeções oferecidas pelo My French Film Festival no início do ano. Ao longo de seus 102 minutos, o filme desperta um clima de tensão, especialmente pelas atuações de todo o elenco, mas cabe destacar o desempenho de Karim Leklou - absolutamente sensacional como Josef - o complexo jovem perturbado da sinopse. Sua atuação captura a agressividade e tensão que o personagem demanda, profundo demais para se classificar como bom ou ruim. Existem cenas em que seu personagem me despertou piedade extrema, enquanto outras me despertaram desconforto - uma atuação complexa, não centrada nos trejeitos e fisiologia externa de um distúrbio psiquiátrico, mas nas variações de comportamento de sua personalidade - seus momentos de tranquilidade/agressividade.


A obra tem um ritmo próprio e nada apressado - a tensão se constrói lentamente e tudo eclode no momento certo, de uma forma imbatível - a sensação de inevitabilidade é tenebrosa. A direção de Raphael Jacolout é discreta e eficiente, nos transportando perfeitamente para dentro da obra como observadores. Pelas lentes de Jacolout, somos cidadães sem voz desta aldeia, que aos poucos parece semear mais desconfiança, medo e injustiça do que qualquer outra coisa - é uma passividade monstruosa e cruel.

E a tensão crescente é muito bem acompanhada pela implacável aridez que a vila enfrenta - o sol e suas cores quentes conseguem oprimir, tanto quanto o frio desolador de A Caça (Jagten), um filme parecido em abordar a injustiça e os extremos que o ser humano pode chegar, frente uma cegueira moral. E quando a chuva finalmente chega, ela tem seu clássico elemento metafórico de renovação e purificação, que apesar de não ser uma novidade, funciona maravilhosamente bem. 


Não se trata de uma obra leve ou fácil de assistir, mas a sessão é extremamente compensadora, pela intensa reflexão que desperta (pelo menos despertou em mim). Ancorado por uma atuação arrebatadora e ótima direção, este é um filme que eu quero em minha coleção para rever quando eu quiser.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

My French Film Festival 2016

Uma dica incrível para meus queridos leitores: ontem iniciou o imperdível festival de cinema online - My French Film Festival 2016 - com duração do dia 18 de janeiro de 2016 a 18 de fevereiro de 2016. Trata-se da sexta edição do festival, com uma competição entre dez longa-metragens e dez curta-metragens franceses e o público será o jurado. Informação importante: totalmente gratuito. Excelente oportunidade para acompanhar o apaixonante cinema francês e, neste ano, o Midnight Drive-In trará uma cobertura desse festival, com resenhas dos filmes. Vamos aproveitar!

OBS: Falha minha, esqueci de colocar o link do festival! Segue abaixo:
http://www.myfrenchfilmfestival.com/pt/


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

My French Film Festival 2013 - 3º Edição


Uma dica sensacional para os leitores cinéfilos: você pode participar gratuitamente do excelente festival My French Film Festival. Trata-se de um festival de filmes online com um catálogo de quase 20 obras (longas e curtas) disponibilizadas gratuitamente, com legendas em português. Para assistir a esses filmes (via streaming), basta se cadastrar no site do festival e aproveitar as películas. Além disso, você pode avaliar os filmes, sendo seu voto importante para premiação do filme frente ao público. Não perca essa oportunidade de assitir ótimos filmes franceses, legendado e com excelente definição. Aos poucos comentarei os filmes que assisti por lá aqui no blog, então você poderá vir aos comentários do MIDNIGHT DRIVE-IN e dar sua opinião também. Só não deem bobeira: o festival vai até o dia 17 de fevereiro de 2013.

Clique aqui para visitar o site do festival!

domingo, 3 de junho de 2012

O Garoto de Bicicleta (Le Gamin au Vélo, 2011)



E mais uma vez, o cinema europeu demonstra uma supremacia no ato de contar estórias em relação ao atual cinema de Hollywood. Esse papo é um pouco manjado até, mas não há como negar que filmes como O Garoto de Bicicleta comprovam essa argumentação tranquilamente. O último filme dos irmãos Dardenne (Jean-Pierre e Luc) é um belo drama sobre um garoto (Thomas Doret) que é abandonado pelo seu pai (Jeremie Renier) que diz não ter meios de sustentar o menino. É uma situação dolorosa, explorada de maneira sincera pelos diretores, sem apelações ou fáceis julgamentos. O caso é que esse garoto irá se apegar a uma bicicleta e a uma cabelereira (Cecile De France), com quem criará um vínculo praticamente materno.

Não sou um iniciado no cinema desses dois irmãos, mas achei interessante como o filme não busca muitas explicações sobre como uma determinada situação chegou aquele ponto. Somos mandados para o filme valorizando o presente, a cena em que os diretores focam suas lentes. É interessante isso, pois não há a necessidade de enrolar a progressão da estória com explicações, flashbacks ou qualquer outro recurso narrativo, dando um imediatismo e uma valorização a estória únicos.

Pessoalmente, não sou um grande fã de dramas como este, mas não posso negar a beleza de O Garoto da Bicicleta. São filmes como este que mostram o poder “simples” que certos filmes ainda têm de contar uma estória, sem apelação ou tecnologias. Para quem gosta de cinema mais sério (na contramão dos filmes que eu geralmente comento por aqui), uma obra a ser conferida.

domingo, 30 de outubro de 2011

Martyrs (2008)

Existem muitos admiradores desta película francesa pela internet, saudada como um dos grandes exemplares do terror da década passada. Eu, particularmente, não me impressionei nada com o filme; não é uma obra ruim e tampouco um grande filme.

Na realidade, Martyrs é, para mim, uma espécie de Jogos Mortais melhorado, com uma estória mais interessante e "crível" (com muitas aspas, diga-se de passagem). Aliás, dentro da atual linha de filmes de terror gráficos, recheados de mutilações e tortura, Martyrs é o melhor exemplar mesmo. Só que isso não significa muita coisa, convenhamos...

Existem as cenas pesadas, é claro. Posso dizer, por exemplo, que o começo do filme, quando as duas irmãs chegam na casa de uma determinada família, é espetacular, com muita ousadia do diretor Pascal Laugier. A película vai se mantendo interessante até a metade da fita, quando a tortura começa a rolar solta e a trama tenta se segurar com uma justificativa tão absurda quanto a pseudo-filosofia do moribundo Jigsaw – que tortura pessoas para elas aprenderem a valorizar a vida delas. É uma motivação bastante sem graça, apesar de ter uma mórbida lógica.

E Martyrs caminha para um final extremamente previsível, que eu vejo como o único possível para a obra mesmo. É tão brusco que se você pensar na primeira cena e na última, parece que são dois filmes completamente diferentes. Martyrs divide-se exatamente desta forma: um início arrebatador, terror psicológico dos bons, violência assustadora; a segunda parte é mais violenta, cheia de absurdos explicados por uma motivação maluca. São partes tão díspares que prejudicaram a obra, a meu ver.

Mas é óbvio que para quem gosta de cinema de horror, Martyrs é obrigatório, pois é um exemplar decente com algumas cenas realmente interessantes. Trata-se de um representante digno do atual cinema francês de terror. Além disso, para aqueles que acham que O Albergue ou Jogos Mortais são filmes fortes, sugiro que procure esse Martyrs para ver uma obra que, mesmo com seus erros, é extremamente superior a esses "filmecos" americanos.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Império dos Lobos (L'empire des Loups, 2005)


O mercado brasileiro de filmes vem sendo abastecido com uma considerável remessa do atual cinema francês de ação e filmes policiais. Quase sempre, estes filmes me agradam, pois apesar de apresentarem tramas já retratadas em outras obras, o cinema francês possui uma linguagem visual única, diferente da cacofonia de sons e explosões que inundam o cinema norte-americano atual. São obras inteligentes, com atuações relevantes – garantia de bom cinema.


Império dos Lobos é um ótimo exemplar desta safra, com atuações competentes e um roteiro labiríntico, cheio de reviravoltas e surpresas. A direção ficou com Chris Nahon, que também dirigiu O Beijo do Dragão e Blood: The Last Vampire.


A trama segue duas estórias: a primeira acompanha Anna (Arly Jover), uma mulher que está sofrendo com alucinações e uma amnésia que a impede de reconhecer o rosto do próprio marido. Desesperada, Anna procura a ajuda de uma psiquiatra para tentar revirar seu passado em busca de respostas.


A outra linha narrativa acompanha os policiais Netteaux (Jocelyn Quivrin) e Schiffer (Jean Reno), que investigam o brutal assassinato de três jovens turcas ilegais. Aos poucos, a dupla vai aprofundando suas investigações, mergulhando no submundo da máfia turca. E, aos poucos, as duas tramas se entrelaçam, formando um thriller dos bons.


Apesar de acelerar as coisas em seu epílogo, Império dos Lobos nos surpreende com uma trama vibrante e envolvente. Reno está ótimo como o policial conhecedor da máfia, com métodos nada ortodoxos de conseguir suas informações. Existe uma ponta de fantasia e absurdo no roteiro – não vou estragar a surpresa...

Vale lembrar que a obra é baseada num livro de Jean-Christophe Grange, mesmo autor de Rios Vermelhos, um filme muito elogiado que ainda não tive a oportunidade de conferir. Mas, segundo alguns sites que eu visitei, as duas obras possuem uma razoável semelhança.

Império dos Lobos é um belo exemplar policial do atual cinema francês. Um filme que vence com tranquilidade a torrente de mediocridade que inunda os filmes deste gênero. Mesmo com algumas falhas, vale a conferida pela trama envolvente e delirante, que nos surpreende a todo o momento.