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quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Duas "Lo-Fi Science Fictions": Passageiros e A Chegada


Há alguns anos eu li um artigo interessante no site Taste Of Cinema sobre a ascenção de um novo gênero - a "lo-fi science fiction" ou ficção científica lo-fi. Para quem não sabe, lo-fi vem de low definition, um termo tirado da indústria da música para aquelas gravações de baixa qualidade, com suas distorções e ruídos. 

Na contramão de blockbusters descerebrados, sem muitos atrativos além dos efeitos especiais e visuais, estas ficções científicas são filmes recheados de filosofia, drama, diálogos morais e profundidade. Aliados ao seu conteúdo está o pano de fundo da ficção científica - uma situação, um planeta, uma nave, uma máquina e quase sempre o futuro próximo. 

Muitos dos filmes desse emergente subgênero ainda não são conhecidos do grande público, mas já possuem alguma notoriedade cult como Lunar, Computer Chess, Another Earth e  Primer. Talvez, o filme mais famoso que poderíamos encaixar nesta categoria de ficção científica é o interessante Ela (Her, 2013), que chegou a faturar um Oscar de roteiro. 

Independente de classificações e subgêneros, é fato que o cinema vem apresentando alguns exemplares cada vez mais interessantes dentro da ficção científica. Logicamente que filmes do gênero recheado de subtextos e interpretações já existiam por aí - um episódio de Jornada nas Estrelas, lá nos anos 60, nunca era apenas sobre uma tripulação de uma nave estelar.  O que diferencia esses exemplares atuais é que, quase sempre, o aspecto fantástico em segundo plano, é um mero contexto para a história que quer ser contada. 

Quero falar de dois filmes recentes que eu enxergo como bons exemplos dessa guinada narrativa: a obra Passageiros e  A Chegada.

Passageiros (Passengers, 2016) é o mais novo filme de Jennifer Lawrence e Chris Pratt, com uma premissa muito intrigante. Imagine um futuro onde uma empresa controla o translado da Terra para outros planetas onde são montadas colônias com humanos, em condições favoráveis e a oportunidade de um "novo começo" para quem se dispuser a pagar o preço. A viagem, contudo, dura mais de uma centena de anos, sendo necessários que os passageiros hibernem durante esse período. Entretanto, um desses passaageiros desperta 90 anos antes de chegarem ao novo planeta. 

O filme flerta com várias tramas clássicas da ficção científica como o isolamento do espaço, a falta de emoções em andróides perfeitos e os perigos de uma viagem espacial. Mas todas essas tramas são meros contextos para um filme de romance - algo que foi muito bem vendido pelo trailer. 

Temos um visual realmente incrível e o design da nave é sensacional. O filme tem seus momentos de tensão e ação, mas nada disso ofusca a trama principal - o romance dos protagonistas. Pessoalmente, achei o filme meio morno, do tipo que não leva a lugar algum, mas ainda assim um entretenimento razoável. 

Já o filme A Chegada (Arrival, 2016) é um sólido drama num contexto já muito explorado no mundo do cinema - a chegada de alienígenas em nosso planeta. Dentro do caos e do pânico desta situação extraordinária, nós acompanhamos a linguista Louisie Banks (Amy Adams), recrutada pelo governo para tentar estabelecer algum contato com estes estranhos seres. 

O diretor Dennis Villeneuve realizou uma obra realmente profunda, principalmente por conseguir mostrar não apenas o caos mundial/geopolítico, como o drama da personagem principal, intimamente ligado por tudo aquilo pelo qual ela está passando.  Quase tudo que Villeneuve e o roteirista Eric Heisserer projetam na tela tem um objetivo e serve como fundação para a construção de uma poderosa mensagem sobre a importância da comunicação e como o tempo pode ser encarado como uma dimensão fora da nossa compreensão. 

A Chegada é um filme denso e tão metaforicamente rico que pode produzir um nó na cabeça de quem queria uma simples ficção científica para passar a tarde. Não é de maneira alguma um filme perfeito, mas com certeza é uma sessão reflexiva só providenciada pelas obras mais diferenciadas que são lançadas nos cinemas. 

terça-feira, 29 de março de 2016

Batman Vs Superman: Dawn Of Justice (2016)



Quem diria que além de inúmeros recordes de bilheteria, o mais novo filme de heróis da DC Comics traria tanta polarização de opiniões como está acontecendo neste instante. 

Eu gostei de BATMAN VS SUPERMAN. Achei um ótimo filme de super herói, com boas cenas de ação/destruição, elementos para os fãs de quadrinho se esbaldarem, personagens sendo retratados da maneira ideal (tanto o Batman do Ben Aflleck quanto a Mulher Maravilha de Gal Gadot estão incríveis, mas não posso deixar de destacar Jesse Eisenberg - perfeitamente acima do tom como Lex Luthor - e Henry Cavill - na minha modesta opinião, o Superman perfeito), visual incrível e aquela sensação de que um nova leva de filmes de heróis vai começar a invadir os cinemas. Este filme funciona muito bem e o considero como uma ótima pedra fundamental deste novo "universo cinematográfico", um verdadeiro evento do cinema-pipoca.

Mas o filme não é perfeito. A primeira hora de filme é marcada por alguma falta de coesão - não consegui me captar com o clima ou a trama, principalmente pelo filme abrir muitas frentes de roteiro e não fechar as mesmas da maneira mais apropriada. Também achei deslocada a trilha sonora de Hans Zimmer, que fez um trabalho inesquecível em Homem de Aço e aqui entrega uma trilha exagerada e "too much". Cortaria alguns minutos de filme também, apesar de ter ciência de que algumas cenas estão ali para filmes vindouros da DC Comics. 

Meu maior problema com esta obra é que em muitos momentos o filme nos entrega pouco do Superman, o que me incomodou, principalmente por eu ter encarado este filme como uma continuação de Homem de Aço, o que não é muito apropriado. DAWN OF JUSTICE é um filme muito particular, que mistura dois universos de personagens diferentes (Metropolis e Gothan) para sedimentar a fundação da tão esperada Liga da Justiça; não se trata de uma continuação...

Mas, considerando-se que o maior propósito de uma obra dessas é chamar público para se esbaldar em pipoca e coca-cola, a missão foi cumprida com êxito. BATMAN VS SUPERMAN é um filme barulhento, bem feito, impressionante, exagerado e quase exótico se considerarmos as "inocentes" obras que a Marvel vem colocando no mercado. Aos trancos e barrancos, não consigo enxergar outra maneira da DC Comics entrar de vez no universo do cinema como foi feita aqui. E eles, definitivamente, me conquistaram.

sábado, 12 de março de 2011

O Vencedor (The Fighter, 2010)


E mais uma vez, a nobre arte tomou as salas de cinemas. O boxe sempre foi um esporte poderoso em suas metáforas e extensões sentimentais, que ultrapassam as cordas do ringue para a vida dos lutadores, representando dramas, conquistas, sofrimentos e vitórias. Em O Vencedor, tem-se a história real de um boxeador que outrora fora brilhante no ringue, mas fracassou na vida pessoal ao afundar no mundo das drogas. E ele quase arrastou, sem querer, seu irmão mais novo para o fracasso, sendo agente e treinador do mesmo. A história de superação de ambos é o foco deste filme de David O. Russell.


Grandes atuações, especialmente de Christian Bale e Melissa Leo (vencedores do Oscar deste ano), além, é claro, de Mark Whalberg e Amy Adams, também ótimos. A direção é ótima, com muito vigor e personalidade. Incrível como O. Russell foge dos clichês, fazendo um filme de boxe completamente diferente de outras obras do gênero.


Contudo, há um grande problema em O Vencedor: a última luta não cativa e nem arranca emoção da plateia como ocorria em Rocky (em qualquer um dos seis filmes da série, a última luta sempre foi emocionante). Uma pena que o filme falhe neste momento que deveria ser de glória absoluta. Também senti falta de uma trilha incidental mais envolvente e poderosa.


É um bom filme, que mereceu cada um de seus prêmios. Mas uma pena que seu clímax não tenha a mesma força que seu protagonista Micky Ward.