sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

SBT é o melhor canal de filmes da televisão

Você já assistiu o novo anúncio do SBT, estreando Celso Portiolli e Maisa, anunciando os "novos" filmes que estrearão no canal, em breve. É incrível e é a cara do canal, especialmente pela caretice do texto e por não se levar a sério. Sílvio Santos e cia sempre entenderam a não tão simples missão de ser um entretenimento, especialmente em tempos atuais de televisões conectadas a internet. Dá uma olhada nesse anúncio:


Tem seleção mais genial do que essa? Vamos lá: Steven Seagal em Sniper: Operações Especiais; Wesley Snipes em Jogo de Morte (já resenhado por aqui);  Tremors 5; O Homem dos Punhos de Ferro 2 (não gostei muito do primeiro, mas quem sabe esse me agrada, principalmente pela falta de expectativa). 

Talvez o leitor pense que eu esteja sendo irônico, mas não é o caso. Afinal, trata-se de uma seleção de filmes de baixo orçamento, com probabilidade alta de serem filmes fracos e de qualidades questionáveis. Porém, eu sou um cinéfilo que adora ver um filmeco de vez em quando. E considero genial essa seleção principalmente por ser inesperada: enquanto a globo tenta emplacar na sua Tela Quente blockbusters que todos nós já assistimos nos cinemas (ou aqueles filmes, divididos em aguadas minisséries, uma prática realmente lamentável) o SBT caminha na contramão, mostrando aquele setor da locadora que os mais assíduos sempre frequentaram, escapando da estante de lançamentos e alugando aquela fita de Top Tape, América Vídeos, Califórnia Filmes ou Flashstar! Sempre com filmes menores e possibilidades infinitas de você se surpreender. 

Caminhamos, atualmente, em trilhas cada vez mais óbvias. As pessoas fazem maratonas de série no Netflix, porque não tem paciência para acompanhar um episódio por semana. O medo estúpido dos spoilers reflete essa marcha desconjuntada, o medo de se perder um mísero fiapo de surpresa num jogo de cartas marcadas. Quantos trailers recentes não pecam ao revelar uma enorme quantidade da trama, para tentar captar a atenção do público, em dois eternos minutos para uma geração que se emociona apenas por alguns segundos. 

Essa margem de surpresa é obtida com larga vantagem pelo SBT. Vejamos nas duas últimas semanas. No dia 22 de Janeiro, foi exibido o ótimo Rumble In The Bronx (Arrebentando em Nova Iorque) de 1995 - o filme que apresentou e levou Jackie Chan até uma carreira em Hollywood. Trata-se de um divertidíssimo exemplar de ação, um belo cartão de visitas do incrível artista marcial, pontuado com humor, muita pancadaria e incrível trabalho do astro, notório por fazer suas próprias cenas de ação. Como foi divertido sentar numa terça-feira a noite e me divertir com Jackie Chan descendo a pancada em bandidos obviamente ruins. 

E no dia 29 de Janeiro, qual não foi a surpresa ao saber que o ótimo Assassinos Substitutos de 1998 seria o filme da noite! Assassinos Substitutos! Era um daqueles filmes que eu me lembrava até da aparência do VHS, porém não lembrava nada da história. E que filme divertido, com o magnético Chow Yun-Fat dividindo a tela com a gata Mira Sorvino numa trama fechadinha, sem muitas firulas, mas com ótimas cenas de ação, trilha cheia de techno, tudo com uma baita cara de anos 90, tornando a experiência melhor ainda. 

E estes são exemplos deste ano, mas posso comentar aqui muitos outros episódios em que o SBT foi decisivo para alimentar minha cinefilia. Lembro-me de quando minha mãe viajava a trabalho de onibus e meu pai a levava até a rodoviária. Ele sempre pedia para eu ficar acordado, aguardando a chegada dele, para observar o portão de casa. Num desses dias, eu assisti Drunken Master 2, talvez o melhor filme de Jackie Chan, com a provável melhor cena de luta de todos os tempos (assista aqui). Foi após aquela sessão que comecei a me interessar por filmes de artes marciais chineses (isso será papo para outro texto). 

Imagem retirada do excelente blog VHS O Ultimo Reduto
Houve também um episódio de noite de ano novo, após uma ceia deliciosa preparada pela minha mãe, ligamos a televisão. Na globo era exibido o show da virada da filial de nosso estado (Mato Grosso do Sul), com uma artista local que emulava aquelas cantoras de axé - abaixo de uma chuva torrencial e a imagem de qualidade questionável. Resolvi colocar no canal 8 e, para minha enorme surpresa, estavam exibindo Willow, Na Terra da Magia, um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, parte importante da minha infância e da minha vida, graças a uma fita que papai gravara também com Esqueceram de Mim e alguns episódios do desenho De Volta Para o Futuro. Foi um início de ano maravilhoso.

Agora, já adulto, o SBT insiste em me surpreender e querer fazer parte da minha vida. E estou disposto a conceder isso - toda semana eu vou olhar a programação de filmes do canal. E tenho certeza de que terei mais bons momentos como fã de cinema para colecionar, ao lados de todos esses que eu comentei e outros tantos que me marcaram ao longo da vida.  
 

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Pôster - Memory: The Origins of Alien (2019)


Tem uma porção de filmes legais para estrear no festival de Sundance deste ano - os quais provavelmente vão povoar as páginas deste blog durante 2019. Para representar todas essas obras, publico o belo pôster do documentário Memory: The Oringins of Alien, com a proposta de retratar toda a mitologia do fascinante universo de horror criado pelo Ridley Scott. A ideia é boa e pode render um ótimo filme, na mesma pegada dos últimos bons documentários que exploravam filmes cultuados (tipo Room 237 e Jodorowsky's Dune - estou devendo há anos um texto sobre estes filmes...). Uma certeza: será melhor que o Alien Covenant!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Green Book (2018)


Minha primeira reação, frente a filmes como Green Book, é de pura descrença. Na minha cabeça, já imagino um daqueles filmes certinhos, todo calculado para a temporada de premiações, tal como aquele aluno puxa-saco da sala de aula, que faz de tudo apenas para agradar o professor. Na escola, nunca fui de perseguir nenhum colega, por mais insuportável que este pudesse parecer, numa primeira avaliação minha; costumava me aproximar, deixando estes julgamentos os mais íntimos possíveis para conhecer qual era a do "certinho". E, na maioria das vezes, a pessoa se mostrava decente, bacana e uma amizade se iniciava. Logicamente, isso só funcionou até antes do Ensino Médio, período em que temos coisas mais importantes a fazer e se preocupar do que sermos maus-caracteres. 

Esse tipo de pré-concepção parece resistir em mim. Felizmente, não detrato nenhuma obra antes de assistir, pois isso seria de uma desonestidade imensa. Contudo, fica sempre uma má-vontade em assistir o filme, um descaso ou algum comentário debochado. Quando alguém me chama para assistir, quase sempre ofereço outra opção ("Vamos ver o último do Nicolas Cage?" ou "Tenho tantos filmes para assistir, esse aí terá de esperar!"). Com Green Book não foi diferente, mas minha irmã me convenceu e, no final, foi uma experiência muito prazerosa. 

Pra quem ainda não conhece a história, o pianista Don "Doctor" Shirley irá fazer uma turnê pelo interior dos Estados Unidos, incluindo as regiões sulistas, em plenos anos 60. E, para ter uma mínima chance de concluir a turnê, a gravadora contrata um motorista bom de briga para resolver os problemas que, definitivamente, surgirão pela viagem. 

A dupla de atores faz um trabalho fora de série - Viggo Mortensen e Mahershala Ali brilham e encarnam seus tipos perfeitamente, com destaque para Ali, que entrega uma atuação complexa, cheia de nuances. Seria fácil criticar e antipatizar com o pianista, mas ele é muito mais profundo do que se possa imaginar. E só uma grande atuação para captar essas sutilezas. 


Um dos maiores destaques do filme reside na sua semelhança com grandes dramas do passado que sabem dosar muito bem os sentimentos que querem passar. Ora, como não se lembrar por exemplo de filmes como Mr Smith Goes To Washington, com seu tema sério e, ainda assim, com espaço para risos com o deslumbramento de James Stewart ao chegar na capital? Ou ainda The Bishop's Wife, com Cary Grant fazendo suas estripulias com o pobre David Niven, um pastor humano demais com seus problemas mundanos. São apenas dois exemplos de filmes da Hollywood clássica, que sabia muito bem brincar com os gêneros, não se restringido a categorias estanques. Green Book lida com o tema racismo, óbvia peça central da história, mas desenvolve bem seus personagens complexos, servindo para vermos que sempre há algo de cômico nas adversidades da vida. Especialmente sendo meros expectadores da vida de duas pessoas que aprenderam muito sobre elas mesmas, durante essa aventura improvável.  

Além da inevitável comparação com Road Movies, Green Book me lembrou principalmente os filmes de dupla policiais, obras máximas em colocar dois sujeitos de natureza totalmente diferente, enfrentando suas diferenças frente a um mal em comum. A diferença é que em Green Book, os protagonistas estão enfrentando eles mesmos - seus medos, suas dúvidas e sua relação com o mundo injusto que os cerca - qual o papel de um homem dentro de uma sociedade e até que ponto ele deve continuar a atuar conforme se é esperado dele? 


Retomando as referências aos grandes filmes da Hollywood clássica, o filme termina na época de Natal, fechando o aprendizado dos personagens num período consagrado como o de mudanças e evolução pessoal - uma das metáforas que mais gosto em relação ao Natal. Trata-se de uma bonita mensagem de esperança, numa época de muita desilusão como a que vivemos. Seria uma ótima ideia um filme leve, profundo e irradiante como Green Book levar o Oscar de Melhor Filme para casa. Não me culpem pelo meu otimismo...

domingo, 11 de março de 2018

All Things Must Pass: The Rise and Fall of Tower Records (2015)


Existe uma ideia um tanto assustadora, cuja visita vem me assombrando pelos últimos dias: talvez, a felicidade só exista por alguns ligeiros momentos, eclipses de contentamento numa existência marcada, essencialmente, pelo desafio de se viver. É um pensamento aterrador, se você parar para pensar: vive-se uma semana - 168 horas - por alguns minutos que ficarão guardados como especiais para o restante da vida...


Isso desperta uma miríade de sensações e resoluções. Talvez por isso eu venho sentindo essa dor invisível e inexplicável, frente à rotina do meu cotidiano e as perspectivas distantes de resolução. É um incômodo, um desconforto difícil de se aquietar. 

É por essa razão que eu reservo certos filmes para situações críticas como esta. À primeira vista, pode parecer que ALL THINGS MUST PASS é um filme bastante representativo do colapso das lojas de discos e, consequentemente, da venda de música após o advento da Internet. Logicamente, o documentário é sobre isto também e seu epílogo melancólico reforça essa tragédia. 


Entretanto, a ascensão da Tower Records, uma mega cadeia de loja de discos dos Estados Unidos (com sedes distribuídas por todo mundo, incluindo o Japão), é uma história linda para qualquer pessoa que já tenha se emocionado só de entrar uma vez na vida numa loja de discos de verdade (e não uma loja de departamento que também vende música). Afinal, uma das minhas fantasias ou sonhos sempre será ser dono de uma loja de discos. 

Russ Solomon, o criador deste pequeno império, revela, ao longo da projeção, todas as facetas de um empreendedor - a euforia do lançamento da loja, os riscos e o sucesso da Tower até a dura queda sofrida nos anos 2000. Ainda assim, o que percebo nas falas e feições de Russ é um sujeito que teve um grande privilégio, conquistado pelo próprio mérito de ter escolhido a vida que ele queria ter vivido - uma característica que sempre me atrai para estes tipos de documentários ou biografias. 

Muito maior do que o nicho Documentário Sobre Música pode abranger, ALL THINGS MUST PASS é um belo exemplar da necessidade de empreendermos pelo que acreditamos. Um dos slogans mais emblemáticos desta mítica loja era o dramático (porém verdadeiro) No Music No Life. Suponho que para este filme, eu adaptaria esse slogan para NO DREAMS NO LIFE.

sábado, 27 de janeiro de 2018

Não existe “guilty-pleasure” (ou: porque eu gosto de Crepúsculo)

Era o ano de 2008 quando o filme Crepúsculo tomou as salas de cinema e os adolescentes se apaixonaram, tanto pelos protagonistas - Robert Pattinson e Kristen Stewart. A história foi uma febre, ilustrando inúmeras capas de revistas, materiais escolares. Pelo menos uma vez por semana você poderia ver alguma menina da sua escola andando com o livro debaixo do braço, na hora do intervalo.

Nessa época, eu tinha 16 anos de idade e ainda era um moleque. Eu fui um desses garotos meio bobocas, inocentes, virgem, cheio de amigos meninos muito parecidos, levemente excluído dos grupos das pessoas mais descoladas – um nerd, apaixonado por filmes e jogos. A paixão por música começava a florescer.

Estudei durante minha adolescência numa escola militar, que para meus padrões, era um lugar absolutamente rígido e de pouquíssimas concessões. Teoricamente, uma das muitas proibições da escola era o namoro, cláusula que sempre coloquei como motivo para meus fracassos e amores não correspondidos (mesmo sabendo que, na realidade, a culpa disso recaía sobre minhas atitudes, ou melhor, a falta delas).

Talvez eu seja muito rígido com meu eu do passado, entretanto eu juro que fiz as pazes com essa apatia que povoou minhas escolhas e meus medos da juventude. Afinal, arrependimentos costumam ser inúteis, especialmente quando há uma tendência de se repetirem erros e atitudes de outrora. É claro que nós nos adaptamos e mudamos, levando em conta que a insistência nos equívocos pode e deve ser analisada sob a perspectiva de um analista, porque tais repetições são descabidas, convenhamos.

Nesse rio inglório do passado, porém, fiz algumas boas escolhas e tomei algumas atitudes que me enchem de orgulho. E uma dessas atitudes envolve justamente o filme alvo deste nosso tópico.

Minha cópia do filme. Até acho os outros filmes da série
divertidos, mas o primeiro ainda é o favorito
Os professores organizaram um passeio com os alunos para uma ida ao cinema durante uma nublada manhã de quarta feira. Nessa época, tínhamos apenas dois cinemas funcionando em Campo Grande: um Cinemark (no outrora único shopping da cidade) e o saudoso Cine Cultura – duas salas com filmes europeus e alternativos, que acabou não resistindo por muito tempo (mencionado numa das primeiras postagens deste blog). A turma iria, logicamente, no multiplex, onde poderíamos escolher dentre dois filmes: Marley e Eu ou Crepúsculo.

Duas filas se formaram; meus amigos se encaminharam para o drama canino; eu fiquei olhando os dois pôsteres, ainda indeciso; alguns colegas começaram a me perguntar “Você não vem?”; voltei a encarar os pôsteres; olhei as filas mais uma vez: meus amigos e praticamente todos os casais de namorados estavam prontos para Marley e Eu enquanto a fila para Crepúsculo era majoritariamente de meninas excitadas para acompanhar o vampiro Edward. Escolhi Crepúsculo.

Alguns zombaram e meus amigos estranharam, mas eu não falei pra ninguém o motivo da minha escolha. Tratava-se de algo tão infantil pelos olhos da maturidade, mas na cabeça de um garoto, fora a cartada de um mestre. Estava eu ao lado de um monte de meninas histriônicas, sonhando com seus vampiros encantados. Preferia ali do que do lado de um monte de casal chorando a morte de um simpático cachorro.

Logicamente que nada ocorreu durante a sessão, pois afinal ainda era eu que estava no cinema, um adolescente cabaço que acreditava estar diante de uma grande vitória moral por ter driblado os outros amigos. Saí do cinema com cara de vitorioso enquanto os outros saíram com seus olhos inchados de lágrimas. Dali voltei direto para casa, pois morava perto do shopping, o que me concedeu mais uma sensação de vitória, ao tomar meu próprio caminho, diferente da massa.

E sobre o que era o filme mesmo? Naquela sessão, eu mal prestei atenção. Mas até hoje, Crepúsculo é um filme que me provoca um bem-estar imenso quando assisto, uma sensação boa de ter vivido alguns dramas da juventude que eu sempre tive a impressão de não ter vivido. No final das contas, eu também fui um adolescente como os do filme, meio estúpido e bastante imaturo.

Muito amigo acha bizarro eu gostar deste filme. Felizmente, não tenho amarras (nem um pingo de amor-próprio, talvez?) para expor isso. Entretanto, meus caros, não há julgamento algum neste mundo que supera uma convicção. E, mesmo soando um tanto dramático, eu afirmo convicto: eu gosto de Crepúsculo!