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domingo, 29 de janeiro de 2023

Leitura: Vampiros da Meia-Noite (Editora Skript; Quadriculando - 2022)

Nos idos de 2003, a melhor revista de cinema lançada no Brasil, a Cine Monstro, fez um especial sobre o cineasta Tod Browning e, ao final da primeira parte desse dossiê sobre o cineasta, a publicação me apresentava ao filme O Vampiro da Meia-noite - London After Midnight de 1927:

"... hoje é considerado um dos filmes perdidos mais procurados de todos os tempos."

Além de atestar a incrível qualidade dessa magazine, a frase acima se mantém como uma verdade até os dias atuais: O Vampiro da Meia-noite, maior sucesso comercial da parceira Lon Chaney e Browning permanece perdido até o dia de hoje, suscitando uma grande popularidade ao redor dessa obra, rendendo diversos vídeos no youtube, livros, montagens de fãs, uma montagem do TCM (falaremos dela um pouquinho mais pra frente) e uma história em quadrinhos recém-publicada no Brasil - Os Vampiros da Meia-noite dos chilenos Gonzalo Oyanedel e Enrique Alcatena.

A graphic novel funciona, basicamente, como um storyboard baseado no roteiro e nas imagens do filme - um material de primeira para fãs de terror e cinema clássico. O traço de Alcatena é bonito e bastante familiar, principalmente por quem já estiver acostumado com HQs europeias (me lembrou um pouco a dupla italiana Giancarlo Berardi e Giorgio Trevisan).

O final da hq traz um ensaio sobre a obra original revelando alguns interessantes detalhes do filme, incluindo a iniciativa do canal TCM de contratar o arquivista Rick Schmidlin para produzir um fotofilme de pouco mais de 40 minutos, baseando-se nas mais de 200 imagens que temos do filme e a versão final de seu roteiro. E essa versão está disponível online - recomendo muito que você assista.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Livro: Dylan Dog - Prelúdio Para Morte, por Dario Argento/Stefano Piani/ Corrado Roi

Lindíssima capa de um dos lançamentos do ano.
O anúncio de uma história em quadrinhos do personagem Dylan Dog escrita pelo mestre Dario Argento foi avassalador. No momento que eu soube, lá em 2018, sabia que teria de adquirir a obra de alguma maneira. A espera compensou: a Editora Mythos lançou um maravilhoso capa dura, grande e lindo, contando com um saboroso prefácio e notas da produção que irá agradar em cheio fãs do Dylan Dog, fãs do Dario Argento e fãs de belas histórias.

Um dos pontos que mais me impressionou foi a percepção passada de se entender o processo da criação desta narrativa pelo maestro Argento. Num saboroso posfácio denominado O Teatro Anatômico de Dario, Stefano e Corrado, somos apresentados ao pormenores da criação da obra. Tudo começou com Dario visualizando uma "bela mulher de longos cabelos pretos e com as costas cheias de cicatrizes". A partir de uma imagem tão plástica e intrigante (uma imagem, aliás, talhada para o mundo do cinema), criou-se uma trama. A partir de uma imagem a história passou a se desenrolar, com Dylan Dog seguindo esses rastros.

Em seguida, Dario associa elementos estranhos entre si, como a figura do Whipping Boy (na época vitoriana, punia-se um garoto pobre, amigo de um príncipe, caso a nobre criança cometesse erros),  o poeta neoclássico italiano Giuseppe Parini (e o intenso verso "Não se deve celebrar o sangue da alma que definha"), a pintura Lais Corinthiaca do mestre flamengo Hans Holbein (pintada em 1526 e exposta no Museu de Belas Artes da Basileia) além de BDSM. São elementos incrivelmente díspares, mas unidos numa envolvente trama, tal qual Argento fez em seus melhores filmes. A riqueza da narrativa impressiona muito.
Giuseppe Parini
Lais Corinthiaca

De quebra, há referências ao universo cinematográfico de Argento, como o próprio nome da HQ que remete a um dos filmes mais clássicos do diretor (Prelúdio Para Morte) e uma citação a banda Globin.

É um trabalho magistral, amigos. Uma obra de arte, uma aula de contagem de histórias e uma amostra maravilhosa da mente genial de Dario Argento. Vocês precisam ter este encadernado em suas coleções. 

domingo, 22 de julho de 2012

Super (2010)



É meio triste ver certos filmes sensacionais não receberem a devida atenção da crítica e do público, caindo num mar comum de obras completamente esquecíveis e descartáveis. Não sei se Super chegou a ser negligenciado, mas vi poucos blogs comentarem sobre essa joia politicamente incorreta, cheia de loucura e genialidade que merece ser descoberta.

Frank (Rainn Wilson) é um cara meio fracassado, menosprezado por quase todos e que tem poucos motivos para viver, na visão dele. As duas cenas mais felizes da vida dele, segundo a narração do próprio personagem, foram quando ele ajudou um policial na captura de um bandido e quando ele se casou com sua esposa Sarah (Liv Tyler).


 O problema é que Sarah é viciada em drogas e, eventualmente, tanto pela postura patética de Frank quanto pelo próprio vício, ela abandona o marido medíocre para viver com seu traficante (Kevin Bacon), deixando Frank completamente arrasado e desesperado.

Pela própria personalidade medíocre, Frank se vê numa situação deprimente; Afinal, ele não tem força diante do ardiloso traficante para enfrenta-lo. Assim, em completo desespero, Frank irá assumir, após uma ajuda especial, a persona de Crimson Bolt, um justiceiro amalucado que ataca os bandidos na rua com uma chave inglesa. E, obviamente, Frank/Crimson Bolt irá recuperar sua mulher das mãos do bandido e seus ajudantes.

Para construir a figura do herói, Frank é ajudado por Libby (Ellen Page), uma vendedora de uma loja de histórias em quadrinho. Após fazer o uniforme e escolher sua (brutal) arma para combater o crime, Frank sairá aterrorizando nas ruas os malfeitores, de ladrões a pedófilos, aos poucos conquistando a opinião pública. O herói é extremamente violento e sua arma mostra todo seu poder ao vermos, de maneira bem explícita, a ferramenta partindo a cabeça de pessoas, literalmente.

O filme lembra bastante Kick-Ass, por revelar esse cara comum que sai com um uniforme ridículo nas ruas, mais apanhando do que batendo. Contudo, Super possui toneladas de dramaticidade a mais do que Kick-Ass, com um humor negro ainda mais afiado e uma trama mais interessante. Os dois filmes são parecidos até pela edição frenética, meio fliperama (na linha do maravilhoso Scott Pilgrin).


A obra conta com interpretações estupendas do elenco inteiro. Ellen Page encanta com sua personagem amalucada. Kevin Bacon está ótimo como o cínico bandido. Há Michael Rooker, sempre eficiente, como um dos capangas do bandidão. Há Liv Tyler, lindíssima e frágil. E claro há a estrela do filme, Rainn Wilson, simplesmente espetacular como o amargurado Frank. Rainn Wilson, que rouba a cena desde os tempos de The Office, arrebenta nesse papel, tanto no drama quanto no humor. Realmente, gostaria de ver mais filmes com esse cara.

Trata-se de um filmaço esse Super. Espero sinceramente que você considere assistir a esse filme, porque, para mim, este é um dos grandes filmes dos últimos anos. Sem dúvida estou de olho em novos filmes do diretor James Gunn e do Rainn Wilson.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

domingo, 25 de abril de 2010

Motoqueiro Fantasma (Ghost Rider, 2007)


Na boa, eu não entendo o porquê de boa parte dos críticos de cinema terem detonado Motoqueiro Fantasma. Lembro-me de algumas opiniões escritas na época de seu lançamento. A mais equivocada delas saiu da revista Veja e era algo mais ou menos assim: “Nicolas Cage é substituído, sem muita diferença, por uma caveira flamejante”. Sinceramente, percebam que opinião equivocada: não é novidade, para quem é cinéfilo que Cage é um aficionado por histórias em quadrinhos. Seria no mínimo discrepante esperar uma atuação ruim, por parte dele, num papel que ele há anos perseguia. Isso sem mencionar que se Motoqueiro Fantasma é um filme bacana, pelo menos 80% disso deve-se a Nicolas Cage.

Outro ponto que muitos críticos salientaram é que Motoqueiro Fantasma era um filme muito infantil, que não era fiel às raízes originais. Contudo, apesar do filme não ser pesado e nem um pouco forte, não podemos desmerecer a obra. Afinal de contas, Motoqueiro Fantasma é um belo entretenimento para quem está procurando um filme divertido sem muitas novidades.

A história acompanha Johnny Blaze, que é enganado pelo diabo (
Peter Fonda) e acaba preso numa maldição – a de se transforma numa caveira flamejante que persegue quem o diabo manda. Ele vive tentando entender essa maldição até o momento em que ele finalmente acaba usando-a – quando o filho de Mephisto (Wes Bentley) vem para a Terra para se apoderar de um contrato feito entre uma cidade e Mephisto.

É verdade que o roteiro do filme peca pela falta de originalidade e alguns muitos clichês. Entretanto, isso não compromete o divertimento, ainda mais quando temos um elenco tão bacana como o próprio Cage, Peter Fonda e o sensacional
Sam Elliott. Muito bacana também são os efeitos especiais e sonoros do filme, bastante divertidos e convincentes.


Se um dos objetivos do cinema é criar entretenimento descompromissado que sirva, em certos casos, apenas como diversão, então Motoqueiro Fantasma cumpre seu papel perfeitamente. Se é isso que você procura, então você deve assistí-lo.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Watchmen (2009)


Watchmen projetou-se como a minha grande aposta para o ano de 2009 e, após várias tentativas, eu finalmente o conferi, praticamente, um ano após seu lançamento.


Primeiramente, devo dizer que Watchmen foi uma grande decepção para mim. O filme não é, de maneira nenhuma, ruim. Pelo contrário, Watchmen é uma obra estupenda. Estupenda e grandiosa em vários aspectos. No entanto, o resultado fica muito aquém do que era esperado, especialmente quando estamos falando de um material tão comentado, elogiado e premiado como os quadrinhos de Alan Moore e Dave Gibbons.


Não tenho interesse em fazer uma sinopse da história, pois não há como escrever sobre a trama de Watchmen em um parágrafo. E é toda essa complexidade que tornou Watchmen um grande desafio para Hollywood. Dizem que Terry Gillian abandonou o projeto por achar que um longa-metragem de 2 horas não faria jus ao material...


Eis que Zack Snyder, após realizar o regular Madrugada dos Mortos e o ótimo 300, agarrou o projeto e adaptou-o na marra, primando pela extrema fidelidade aos quadrinhos de Alan Moore.


E não são poucos os momentos em que a fidelidade de Snyder beira o inacreditável. Visualmente, Watchmen é sensacional e impecável. Cenários, figurinos, efeitos especiais, som e montagem absolutamente fantásticos, sem exceção. Um exemplo desse primor técnico é a seqüência de créditos iniciais: memorável e interessante.


Contudo, essa busca pela perfeição visual teve um custo alto para a adaptação de Snyder: o roteiro. Não estou me referindo, neste caso, à trama da história, que é muito boa por sinal. Refiro-me ao tratamento dado aos personagens que, em vários momentos, é extremamente raso e ineficiente.


Por exemplo: se observarmos o Coruja (Patrick Wilson) percebemos que não há muitas cenas em que podemos analisar, ou até mesmo nos interessar, o aspecto psicológico do personagem. Afora a cena em que ele transa com Espectral (Malin Akerman), não há nenhuma demonstração de sentimento dele que me convenceu.

Outra personagem que exemplifica esse fato é a própria Espectral. Veja por exemplo a cena em que ela descobre quem era seu pai por intermédio do Doutor Manhattan: a cena inteira soa tão forçada e canhestra que chega até incomodar.


No entanto, essa artificialidade não atinge todos os personagens da obra: o Comediante (Jeffrey Dean Morgan), Rorschach (Jackie Earle Haley), Ozymandias (Matthew Goode) e Doutor Manhattan (Billy Crudup) são extremamente complexos e suas ações nos fazem refletir muito mais sobre o que está passando na tela. Como ficar indiferente a um "herói" que dá um tiro numa mulher que está grávida de um filho seu? Ou a um herói cuja obsessão por salvar a humanidade ultrapassa as raias da frieza? Ou ainda um herói que mais parece um homicida? De fato, Watchmen decola nos momentos em que esses personagens aparecem no filme.


E os melhores momentos do filme são justamente aqueles em que esses personagens aparecem. Entre as melhores partes, destaco a cena em que mostra o passado do Doutor Manhattan (simplesmente fantástica), o clímax no gelo e TODAS as cenas em que o Comediante aparece.


Aliás, Watchmen é muito melhor em seus momentos de drama e conflitos do que nas cenas de ação. As lutas do filme são muito fraquinhas e a violência surge de uma maneira desproporcional, não condizendo com o clima sóbrio e realista da obra. Para que mostrar um par de braços sendo arrancado por uma serra circular elétrica? Em certos momentos, a violência cai bem (na cena em que Rorschach dá uma "cutelada" na cabeça de um sujeito), porém esses momentos são poucos.


No final da conta, temos um filme incrível e sensacional visualmente. Contudo, esses escorregões da produção contribuem decisivamente para um resultado que beira o regular. Trata-se, sem sombra de dúvida, de uma obra interessante e bacana. Contudo, tinha potencial de sobra para se tornar um verdadeiro clássico, assim como a obra original. Se você não assistiu, faça-o, pois você estará diante de um dos filmes baseados em histórias em quadrinhos mais inteligentes e realistas que o cinema já produziu.