domingo, 1 de janeiro de 2023

Balanço 2022: Os filmes, os livros e os discos

 Mais um ano que se finda e aqui seguem resenhas curtinhas para contabilizar meus favoritos do ano:

Melhores Filmes de 2022 (dos poucos que assisti):


- Top Gun: Maverick

Muito já foi dito sobre este filme e eu atesto tudo de positivo que já foi falado: é O filme do ano! Um blockbuster daqueles como há muito não se lançava nas salas de cinema, com um roteiro simples (porém matador), excelentes cenas de ação, genuína emoção e uma participação inesquecível do Val Kilmer. Consegue ser melhor que o original. Eu só peço à Deus que pelo menos um filme como esse seja lançado por ano - já seria o suficiente para conter o mar de mediocridade dos lançamentos atuais.

- Batman

Tanta, mas tanta coisa poderia ter dado errado com este filme e, ainda assim, foi o melhor lançamento baseado em histórias em quadrinhos do ano. Simplesmente adoro esse roteiro e adoro as decisões criativas que esse filme tomou, conseguindo se encaixar no universo criado pelo filme do Coringa. A DC Comics está uma bagunça e eu não faço a menor ideia dos próximos passos da Warner, mas que este filme faz jus ao morcegão - isso faz!

- Tudo em Todo Lugar Ao Mesmo Tempo

Presença garantida na atual temporada de premiações e eu me alinho com a turma que aprovou este filme. É original, inventivo, tem performances ótimas e quanto mais eu penso nesse filme, mais eu gosto dele - apesar do final escorregar um pouco no melodrama. Ainda assim, uma experiência única e vou torcer para a senhora Michelle Yeoh levar o Oscar de melhor atriz.

- Nada De Novo No Front

Sendo um dos meus filmes favoritos, logicamente eu esperava bastante desta adaptação que realmente não me decepcionou nadinha. É um filmaço brutal de guerra que passa rapidinho apesar de sua longa duração. Não dá vontade de ver nenhum filme de guerra depois dele, pelas terríveis imagens registradas, mas consegue te dar aquele soco no estômago que o livro me fez, quando eu o li aos 15 anos de idade.

- O Menu

Pra mim, esse é o filme de terror do ano. Óbvio que não é o terrorzão tradicional, mas um suspense tranca respiração de primeira - na sessão de cinema que eu conferi, os eventuais comentaristas babacas que sempre empesteiam as sessões calaram a boca rapidinho conforme a trama se desenrolava. Queria muito que o Ralph Fiennes disputasse na categoria de ator coadjuvante, mas acho difícil. Um filme do David Fincher sem ter sido dirigido por ele.

Melhores Filmes Assistidos em 2022 pela primeira vez:


- O Sol Da Meia-Noite (White Nights, 1985)

Filme maravilhoso dirigido por Taylor Hackford, numa típica trama com cenário de fundo a Guerra Fria. Belas performances da dupla protagonistas, em especial o já falecido Gregory Hines que compôs um personagem BEM complexo. Filmaço que faz você sentir naquelas salas com tablados, numa tarde de semana, com o sol esvaecendo pela janela, refletindo o chão e as partículas de poeira... Viajei bastante, mas amei este filme

- De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut, 1999)

Inesquecível. Stanley Kubrick é foda. Fantasia erótica com generosas pitadas de horror sobre o quão fundo você avança nas esferas de poder e  vai encontrando todo tipo de perversidade e impunidade. Mesmo que você consiga não encarar este filme como uma denúncia, as cenas que o Kubrick talhou dificilmente sairão da minha cabeça. Cá entre nós, uma obra-prima.

- Ensina-me a Viver (Harold And Maude, 1971)

Simplesmente inacreditável observar como Hollywood perdeu a capacidade de criar filmes como esse, uma comédia de humor negro absurdamente sensível e muito cômica. As performances são extraordinárias e o final deste filme é um daqueles grandes epílogos da história do cinema. Este eu preciso na minha coleção.

 - Na Mira da Morte (Targets, 1968)

Assistido coincidentemente um dia antes do falecimento do Peter Bogdanovich, em seu primeiro crédito como diretor - graças ao deus da produção do cinema Roger Corman - temos um filme chocante sobre um homem surtado com acesso a armas e um astro decadente da antiga Hollywood - performance incrível de Boris Karloff. Um filmaço de suspense com uma mensagem interessante e um subtexto finíssimo.

- Cortina de Fumaça (Smoke, 1995)

Nada como aqueles primeiros filmes da Miramax, que tem um jeitão tão único, difíceis de se explicar em palavras. Elenco de primeira, incluindo o saudoso William Hurt, aqui temos o universo da Nova York de Paul Auster, que deixa até mesmo um brasileiro do centro-oeste próximo daquela realidade. Filmão que merece uma edição mais caprichada para minha filmoteca.

Melhores Discos de 2022: 

-  Fontaines DC - Skinty Fia

Altíssima rotação e o cd do ano. Os caras fizeram o melhor álbum de sua carreira, com performances vocais potentes, arranjos incríveis e a sensação de estar andando pelas ruas de Dublin durante os dias mais cinzentos do ano. É o tipo de disco que me faz querer voar para longe daqui e, quem sabe, este não foi o meu passaporte?

- Suede - Autofiction

Não tem nada como uma banda veterana mostrando todo o seu poder de ação. Suede, veteraníssimos do britrock dos anos 90, soltaram o disco mais pessoal, sentimental e dilacerante do ano. As performances ao vivo nos deram mostra de como os caras ainda estão nas pontas dos cascos. 

- White Lies - As I Try Not To Fall Apart

Detratores diriam que o White Lies não resistiria por muito tempo, entretanto a cada novo trabalho os ingleses demonstram a evolução e o quão pouco eles ligam para a imprensa "especializada". Do ponto de vista criativo, o White Lies é uma das bandas mais incríveis de se acompanhar. 

- Red Hot Chilli Peppers - Return Of The Dream Canteen

Curioso caso: a melhor música que os Chilli Peppers lançaram neste ano está em seu cd anterior (Black Summer), mas este disco leva o caneco pela mistura de uma sonoridade mais próxima do início da carreira dos caras com muita, mas muita, experimentação. É o disco para embalar os dias vindouros de sol.

- Interpol - The Otherside Of Make-Believe

Tenho a impressão que só os fãs mais "hardcores" do Interpol gostaram deste disco - e eu me enquadro nesta categoria! Interpol continua despejando sua melancolia e suas letras estranhas com aquela típica base sonora do post punk deste século. Baita disco para se ouvir voltando do trabalho em dias de chuva.

Melhores Livros Lidos em 2022:


- Uma Viagem pelos países que não existem (Editora Pulp, 2018)

Só pelo conceito do livro - um relato de visita a locais do mundo não reconhecidos como nações independentes - já foi o suficiente para eu procurar essa obra por um longo tempo. Óbvio que depois de finalmente a ter adquirido, hoje é facinho de encontrá-la à venda por aí. Livro rápido e gostoso de ler.

- Coleção Reminiscência - Volumes V, VI, VII e VIII (Editorial Corvo, 2022)

Uma roubadinha de leve, mas não tem como eu destacar um livro só dessa coleção de fôlego onde o mestre Rubens Francisco Lucchetti nos presenteia com o seu universo de referências e memórias, tal como uma tarde tomando café em sua companhia. Maravilhosos e gostaria de muitos outros volumes no futuro.

- O Clube de Boxe de Berlim (Editora Rocco, 2003)

Livro juvenil prontinho para uma adaptação em Hollywood. Não tem absolutamente nada de novo, mas é uma leitura agradável e fluida. Não morro de amores pelo final que é um tantinho arrastado, mas certamente é uma ótima história.

- Os Salgueiros (Editora Empíreo, 2019)

Clássico do terror do autor Algernon Blackwood, é uma novela enervante de terror + natureza (esqueçam a denominação hypada de folk-horror, por favor) que consegue te deixar sem ar em muitos momentos. Enigmática, sufocante e uma bela porta de entrada para o universo deste autor. Lerei alguma outra coisa dele, neste ano - espero.

- A Vida dos Outros e A Minha (Cultura e Barbárie, 2021)

Que beleza de livro! A autora Claudia Cavalcanti relata sobre o período em que viveu na Alemanha Oriental, tendo solicitado os arquivos que a Stasi (a polícia secreta da Alemanha comunista) produziu sobre ela. Parece muito com um envolvente filme europeu de espionagem dos anos 70 e 80. Espetacular

domingo, 30 de outubro de 2022

O Exorcismo da Minha Melhor Amiga (My Best Friend's Exorcism, 2022)

 


Creio que falar sobre esse filme desperta em mim duas linhas de pensamento:

A primeira delas é de que se trata de um filminho razoavelmente divertindo, nadando nessa maré de revivalismo dos anos 80, principalmente de alguns aspectos de sua estética. Há uma agradável sensação de se estar diante de um daqueles descompromissados exemplares de comédia adolescente/terror, um tanto quanto esquecível de uma maneira geral. Os atores foram bem escolhidos, a produção visual é bacana e o filme é curto e direto ao ponto, além da trama se fechar em um único longa-metragem (porque, francamente, a ideia de tudo se tornar uma franquia - ou "universo expandido", um termo pra lá de "sojado" e imbecil desta geração - me cansa profundamente). Assim, O EXORCISMO DA MINHA MELHOR AMIGA é um eficiente e passageiro exercício de divertimento descartável.

A segunda delas é de que como muitos desses produtos do revival anos 80, este filme é um exercício artificial de "homenagem" daquela época, incapaz de se conectar com o pensamento de outrora e mais parecendo adolescentes atuais fantasiados com roupas cafonas. As atuações até que passam, mas as linhas de diálogo são horrorosas e o filme se esforça demais em mostrar muitas ideias e cenas do livro, sem criar qualquer tipo de tensão real. O tipo de humor é inocente demais pra agradar e limpinho demais para realmente lembrar um pouco do clima liberal dos filmes daquela época. Tal qual o livro (que eu li ano passado e, como muitos destes bestsellers atuais, pouco me lembro), a capa é muito mais interessante que seu conteúdo.


 Dito isso, ainda acredito que o filme tem em suas qualidades mais força do que seus defeitos. Assim como no livro, algumas ideias da trama me agradam muito: a "subversão" da personagem que se torna possuída e a maneira como essa possessão se manifesta é diferentes dos muitos clichês deste subgênero. Além disso, uma das melhores ideias do livro é trazida às telas de uma maneira satisfatória pela sua estética absurda - refiro-me aos evangelistas musculosos que praticam um número de musculação + catequese; contudo, assim como no livro, a ideia é visualmente incrível e bastante engraçada, mas a execução fica aquém do esperado.

Ademais, é preciso destacar que o senhor diretor parece ter se perdido com a quantidade de cenas no livro que no filme parecem desconjuntadas, tornando o trabalho de edição deste filme bastante fraco. De uma certa forma, o fato de ser um produto lançado via streaming (da Amazon) leva a minha opinião crítica a seu respeito ser um pouco mais virulenta. Talvez, se fosse uma daquelas fitas cassete dos anos 80, de uma Alvorada Vídeo da vida, provavelmente que o saldo teria sido mais satisfatório. 

Pôster: Dampyr (2022)


 

 Navegando pelo Imp Awards, em busca de alguma grande novidade em formato de pôster; na aba dos lançamentos gerais, no mês de Outubro, não encontrei muita coisa além das primeiras imagens promocionais do terceiro capítulo da série Creed (aguardadíssima por aqui); partindo para a aba de lançamentos internacionais eu me deparo com pôsteres de uma adaptação de Dampyr, um dos muitos personagens da maravilhosa galeria de personagens do Sergio Bonelli. Confesso que até o presente momento eu só conheço esse personagem mais de nome, mas só de conhecer de onde vem essa grife e a beleza do material promocional, já fico bastante curioso com o que pode vir por aí.

sábado, 15 de outubro de 2022

Inju - O Despertar da Besta (Inju, la bête dans l'ombre, 2008)

 

Certas coincidências são bem agradáveis de perceber quando se é um colecionador de qualquer coisa. No meu caso, uma das minhas coleções é de filmes e meu padrão de compras é bastante difícil de se identificar para qualquer um que não esteja dentro da minha cabeça. Há uns meses eu fiquei completamente extasiado em completar a trilogia Turbulência e, recentemente, venho comprando títulos lançados no Brasil da Hollywood Studios... são idiossincrasias charmosas do mundo do colecionismo, pelo menos para mim. E, foi numa dessas observações da estante que percebi, estupefato, que adquiri uma quantidade considerável de filmes do diretor Barbet Schroeder, sem ter planejado tal movimento. Engraçado, não? Até onde eu sei, ele não é dos diretores mais festejados e conhecidos por aí, até mesmo por mim e, quando me dei conta, tinha três dvds dele nas minhas estantes...

O filme que comentarei brevemente por aqui não é, aliás, de uma leva recente de compras. Pelo contrário, está na minha estante há bastante tempo, tendo sido comprado na última vez que presenciei o "enterro" de uma locadora, no caso a 100% Vídeo da Avenida Afonso Pena, uma das últimas que pereceu em Campo Grande, mais ou menos em 2012, se não falha minha memória. Apesar da mídia estar levemente arranhada, provocando alguns engasgos durante a transmissão (algo sempre irritante), há algum charme em pegar a capinha do dvd e ver aquele selo de "suspense", com a logo da antiga empresa, na lombada do filme - meus amigos, eu sinto muito falta do ambiente das locadoras...

Deixando de lado essas divagações, vamos comentar um pouquinho sobre INJU, um verdadeiro neo-noir dirigido com simplicidade e elegância pelo senhor Schroeder. A trama gira ao redor de um escritor francês de livros policiais (Benoit Magimel) cuja carreira está em plena ascensão, sendo considerado o próximo grande nome do gênero, sucedendo a última grande sensação das tramas policiais - um escritor misterioso japonês, cuja identidade nunca foi revelada, com os livros extremamente cruéis e todo uma aura cult em torno de sua figura. Essa rivalidade profissional entre os escritores acaba assumindo contorno bizarros, especialmente quando o tal autor japonês resolve, durante uma turnê do novato no Japão, ameaça-lo de diversas formas, como se transpusesse para a vida real uma das tramas de seus livros, adicionando-se a figura enigmática e hipnótica de uma gueixa (Lika Minamoto) na história.

 


 Naturalmente, o filme tem suas doses de exagero, especialmente no desenrolar da trama, mas nada que prejudique a sessão, a não ser que se esteja de extrema má vontade. Senti ao longo do filme uma espécie de admiração do diretor diante da sociedade japonesa e alguns de seus elementos culturais mais únicos - o universo das gueixas. Escapa-se da armadilha da reverência alegórica para se explorar uma sinergia de ocidente/oriente bastante interessante, algo similar em filmaços como Chuva Negra e Marcado para Morrer, dois outros policiais que se passam no Japão, representando outros aspectos bastante específicos da cultura japonesa (no caso Yakuza e Samurais, respectivamente).

Uma das coisas mais legais de INJU é a mistura equilibrada de violência, mistérios, investigação e surpresas do filme, embalado por uma interessante trilha sonora e um bom ritmo geral da obra, levando-me a considerá-la como um autêntico neo-noir. Outro aspecto interessante é a mistura de francês e japonês ao longo do filme, bastante agradável aos meus ouvidos. Isso sem falar nos elementos eróticos do filme, em especial a senhorita Lika Minamoto que entrega uma performance absurdamente sensual, inocente e misteriosa ao mesmo tempo.

Trata-se de uma adaptação de um romance escrito pelo autor japonês Edogawa Rampo, importante autor de literatura de gênero japonesa, ainda sem tradução em nosso mercado editorial. Suas histórias foram adaptadas para o mundo dos cinemas dentro do Japão, sendo este escritor considerado uma espécie de Edgard Alan Poe de lá (ele mesmo admirava o autor norte americano).

Distribuído pela Sven Filmes no Brasil, não é um título tão fácil de se achar por aí. Pelas andanças na internet, vi que tem uma cópia em blu-ray lançada na Alemanha que certamente teria seu espaço nas minhas estantes. Um filme eficiente, interessante e que, certamente, eu revisitaria num futuro não tão distante assim.

domingo, 7 de agosto de 2022

O Peso do Talento (The Unbearable Weight of Massive Talent, 2022)



 Ultimamente venho buscando algumas experiências em sala de cinema pelas quais ainda não passei durante minha vida. Talvez porque minha percepção é de que o ato de ir ao cinema vem se tornando cada vez menos prazeroso, pela imensa quantidade de pessoas incapazes de permanecer focadas numa história por mais de duas horas - celulares acesos o tempo inteiro, risos e conversas duelando com o som do filme e a má educação geral de uma população em franco emburrecimento. Mas, ainda assim, poucas coisas mexem com meu coração tanto quanto a experiência de encarar a telona e me imaginar como um dos nomes nos créditos dos filmes que eu amo...

Como um fã do Nicolas Cage é óbvio que a trama de O PESO DO TALENTO me chamou extrema atenção, com nosso astro favorito interpretando ele mesmo. E quando me dei conta, a última vez que vi o senhor Cage nas telonas foi em 2011, no divertido (porém completamente esquecível), Caça às Bruxas. Apesar de acompanhar sua prolífica carreira, um tanto erraticamente, confesso que já tinha perdido as esperanças de vê-lo numa sala de cinema da cidade onde moro.

Para quem não sabe, este filme é sobre Nicolas Cage interpretando ele mesmo, numa fase em que está precisando de muita grana. Por essa razão, ele topa ir conhecer um milionário obcecado por ele (em interpretação divertidíssima do ótimo Pedro Pascal), mas acaba se metendo numa trama que parece ter saído diretamente de um filme de ação dos anos 90. 

Há uma esperta utilização de referências a muitos filmes dele (sem cair na armadilha de ser como os exaustivos filmes da Marvel e suas centenas de referências e conexões), uma trama razoavelmente divertida e, naturalmente, o perfeito veículo para Cage dar um show de performance, explosiva e imprevisível como quase tudo que ele entrega atualmente. A direção é bastante sem personalidade e confesso que tem uma dupla de personagens policiais que eu simplesmente obliteraria caso tivesse escrito o roteiro, mas nada que prejudique a obra.

Assim como esse papel parece um presente ao astro, não pude deixar de encarar o filme como uma espécie de presente para fãs de Nic Cage, fãs de filmes despretensiosos, fãs de filmes de ação longe do esquemão Marvel e fãs de histórias com começo, meio e fim. Obrigado, Nic. São pequenos filmes como este que me fazem lembrar dos prazeres do mundo do cinema.